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Kauã Ykolem, o Conquistador

Kauã nasceu no ano 16 a.c. (Antes da Conquista) em uma pequena aldeia, quando o império de Akakor ainda era chamado de A Grande Floresta. Seu ato de conquista das terras e aldeias da Grande Floresta o enalteceu, tornando...

04/04/2026 A Grande Floresta David Nogueira - Autor 27 leitura(s)
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Publicado em
04/04/2026 17:19
Blog
A Grande Floresta
Autor
David Nogueira - Autor
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Kauã nasceu no ano 16 a.c. (Antes da Conquista) em uma pequena aldeia, quando o império de Akakor ainda era chamado de A Grande Floresta. Seu ato de conquista das terras e aldeias da Grande Floresta o enalteceu, tornando-o símbolo para o atual governo imperial akano. Suas lutas são contadas tanto em histórias para crianças quanto para os estudos e pesquisas das raízes dos povos de Akakor. Kauã havia acabado de passar pelo ritual do homem, deixando sua infância de lado, quando partiu para a Guerra da Conquista.
Só que a ideia de conquistar os povos da Grande Floresta não teria vindo da noite para o dia. A ideia de unir os povos, inclusive, já era planejada, mas não por Kauã Ykolem. Jurupari, do clã Arandu, outrora tentara unir os caciques de todas as aldeias para convencê-los de que a união dos povos traria prosperidade para todos. Os povos viviam em guerra, querendo tomar as terras um dos outros para sobreviverem e Jurupari acreditava que um cacique acima de todos poderia trazer paz e abundância. Contudo, nenhum cacique queria ouvir mais daquelas ideias tolas.
Sendo assim, os conflitos entre os povos continuaram, e com a aldeia das Terras do Gavião, onde o pai de Kauã, Ykolem, era cacique, não foi diferente. Aldeias ao redor queriam conquistar as Terras do Gavião e ampliarem as suas. Kauã tinha 16 anos, era uma noite densa, sem lua, quando seu pai, Ykolem, saiu com os seus homens para atacar uma das aldeias enquanto dormia. E era uma manhã calorenta quando os homens de seu pai retornaram com seu corpo e um aviso: “Quando o sol estiver no topo, os Povos do Leste tomarão suas terras, finalmente”. Kauã, em sua pouca idade, já se via responsável pela sua família e, com a morte de seu pai, a aldeia também era sua para cuidar.
O novo cacique das Terras do Gavião já se via derrotado. Mais da metade dos guerreiros de seu falecido pai estavam mortos, restando apenas aqueles que pudesse dar o recado. Naquele momento só havia duas escolhas a se fazer: reunir as pessoas da aldeia e entregar as terras para os invasores, ainda sem a certeza se todos viveriam, ou permanecer e lutar, sabendo da derrota certa. Mas Kauã não hesitou em sua decisão. Logo todos da aldeia, incluído sua mãe e seus dois irmãos mais novos se organizaram para sair das Terras do Gavião.
Luas se passaram, mas, mesmo escondidos, o Povo do Gavião não estava seguro. A Aldeia do Leste estava dominando inúmeros povos, conquistando várias terras da Grande Floresta sob o comando do cacique dos Povos do Leste, Nopoana. E, infelizmente, os receios de Kauã e seu povo se concretizaram. Nopoana descobriu o paradeiro do Povo do Gavião e invadiu a aldeia improvisada com seus homens. O Povo do Gavião foi massacrado. Homens e mulheres foram mortos, incluindo crianças, sem nenhuma piedade. Mas Nopoana não matou a família de Kauã, deixando sua mãe e seus dois irmãos vivos, tornando-os seus prisioneiros.
Contudo, as decisões difíceis continuavam a surgir. Durante o transporte dos prisioneiros, no caminho em meio à floresta, Kauã foi convencido pela sua mãe para escapar e fugir. “Volte para nos libertar”, disse sua mãe, que depois soltou gritos de uma falsa dor para distrair os guerreiros, enquanto seu filho mais velho fugia. E com uma verdadeira dor no peito, Kauã fugiu, deixando sua mãe e seus irmão para trás.
Por vários dias, Kauã correu, se escondeu, fugiu e passou fome. Não podia ficar muito tempo parado, parando pouco para descansar, pois o perigo de ser encontrado era constante. Kauã não era de rezar aos deuses, as raras vezes em que fazia era com sua mãe, uma mulher devota, que o ensinava sobre a origem do homem e dos clãs que existem. Mas ele não tinha mais ninguém com quem contar, estava solitário e não havia esperanças para salvar sua família. A sensação de derrota corroía seu peito. E se algo acontecesse com sua mãe? Ele já havia falhado como cacique, permitindo que sua aldeia fosse capturada e morta, e agora estava falhando como filho, como irmão, como protetor da família. Se existe vida após a morte, seu pai o assistia com decepção e desgosto.
Seu corpo já estava tão fraco que não conseguia permanecer em pé, até que se entregou ao chão. E foi em algum tempo depois, em que Kauã não saberia dizer quanto tempo se passou, que acordou em uma visão turva, com a cabeça pesada e o estômago vazio, como se seu corpo estivesse inteiramente oco e fraco. Mas algo chamou sua atenção. Pousado em uma árvore, um gavião-real de plumas brancas, tão brancas e puras que refletia a luz do sol em águas cristalinas, o encarava com olhos vermelhos flamejantes, que destacava ainda mais com suas plumas pálidas. Kauã estava cansado e exausto, de fato, mal conseguindo se levantar. Mas havia algo naquela ave que o deu forças para se levantar e vê-la mais de perto. Quando se aproximou, quase a tocando, a ave voou, pousando em outro galho mais distante. Kauã a seguiu e, cada vez que se aproximava, próximo de tocá-la, o gavião-real voava para outro galho. Isso ocorreu até que chegasse a uma grande parede de uma montanha alta e tão íngreme que parecia impossível subi-la. Mas ele conseguiu. Não sabia como estava andando, como estava escalando, mas sabia de uma coisa: precisava tocar naquela ave de rapina albina e misteriosa.
Kauã e o gavião-real se interagiam com os olhares durante a subida. Não sabia quanto tempo havia levado para subir tanto naquela montanha alta – tão alta que poderia ver acima das nuvens. Mas finalmente a ave parou em um galho e não voou quando Kauã se aproximou. Seu transe sessou, finalmente, raciocinando o que acabara de acontecer. Seu corpo retornou ao estado inicial da fome, do cansaço e da exaustão. Agora sentia sede como nunca sentira. Sua visão embaçou e seu corpo cedeu, caindo de joelhos. Mas Kauã se manteve firme, queria entender o que acabou de acontecer. Ele finalmente percebeu a grande árvore em que o gavião albino estava. As raízes da árvore estavam expostas, se enrolando e abraçando as pedras e rochas ao redor. Uma única árvore no topo da montanha. Grande, bela, de tronco e galhos com ondulações finas e douradas, que brilhavam com o reflexo da luz do sol. O gavião ainda o encarava, imóvel, pousado no gralho, com seus olhos vermelhos flamejantes.
- Você irá se recuperar – disse uma voz grave e melodiosa, que ecoava sua mente, mas que parecia vir diretamente da ave no galho. – O importante é que há mais espírito em você agora do que a carne. E é só disso que eu preciso, por enquanto.
Kauã não sabia o que responder, mal conseguia pensar no que dizer e no que pensar.
- Quem é você? – Perguntou, finalmente, com as palavras mal saindo de sua boca.
- Eu sou Anhangá – respondeu a voz. – Aqueles que pedem minha proteção me conhecem apenas como o deus protetor da floresta. Mas eu sou mais do que o protetor. Eu sou a floresta. Sou as árvores, desde a ponta das folhas às pontas das raízes fincadas na terra, que também sou eu. Os animais são meus fragmentos vivos e a floresta é o meu corpo... e vocês homens são a doença que me fere. Vocês destroem, matam e queimam, e eu não posso interferir diretamente por lei divina. Mas eu preciso fazer algo, ou o futuro será pior. E eu escolhi você, Kauã, filho de Ykolem, cacique do Povo do Gavião, para intervir no desequilíbrio e trazer de volta a harmonia da vida.
As últimas palavras do deus acenderam o pouco de energia que havia em Kauã, fazendo-o inclinar a cabeça até o chão e falar:
- Eu mal posso levantar... – protestou Kauã. – Como eu...
Repentinamente o gavião albino entrou em combustão e o fogo que o consumia crescia cada vez mais, tocando no chão. Quanto o fogo sessou e a luz forte apagou, um homem alto, quase que do tamanho da grande árvore, se revelou. Ele trajava uma túnica de plumas cinzas, pretas e brancas. Seus olhos ainda flamejavam, como o gavião-real albino que antes era. O deus se aproximou rapidamente em poucos e largos passos, parecendo furioso, e tocou nos pequenos ombros de Kauã. Sua mão grande cobria toda sua clavícula, ombro e metade das suas costas.
- Não sou eu um deus, ser vivo da própria terra? – Sua voz deixou de ser melodiosa, ficando apenas grave e poderosa, que ecoava por todos os lados, como se todas as pessoas vivas no mundo pudessem escutá-lo. – Meus filhos morrem, meu corpo é destruído e os mortais festejam em vitória. Eu não posso dizimá-los, mas posso consertá-los. Passei anos da minha vida imortal estudando os humanos, tentando compreendê-los e conceber a piedade para vocês. Percebi, então que haviam devotos e passei a prestar atenção apenas nestes. São homens que me temem, que me adoram e que me respeitam. Incluindo uma mulher que chorava a perda do marido e temia o destino dos filhos. Sua mãe me buscou todos os dias. Ela tem esperança na harmonia, algo que eu demorei a ter e que só alcancei graças a ela.
Em lágrimas, Kauã levantou a cabeça e encarou o deus em seus olhos. Os fogos em suas pupilas queimavam ferozmente, alimentado por algo que, se houvesse mais um pouco, expeliria e queimaria a montanha. O deus se abaixou e pôs sua outra mão no outro ombro de Kauã.
- E é por isso que dou a você o meu poder. – Os fogos dos olhos do deus expeliu em uma coluna, atingindo os olhos de Kauã.
Kauã sentiu, a partir de seus olhos, um calor intenso, mas que não o machucava. O calor banhou o interior de seu corpo, despertando-o em força e mais vida. Ele sentiu cada fragmento vivo da terra. Ele sentiu a floresta tomando parte de seu corpo, as raízes e as árvores se tornaram seu sistema nervoso e sentia e via cada animal vivo, desde as formigas que adentram a terra às menores vidas que tomam o céu.
- Você mostrará seu poder aos homens e eles te seguirão. Irá reunir um exército de cada aldeia e matará Nopoara, acabando com sua tirania e encerrando sua destruição da minha floresta. Você irá fundar o maior reino dos homens e o mais poderoso, garantindo a paz e a harmonia dos povos da Grande Floresta.
Em um clarão de fogo, Anhangá se transformou novamente na ave albina e voou para longe, deixando Kauã e o seu poder divino. Agora ele poderia salvar a sua mãe e seus irmãos e fazer muito mais além disso. As ordens do deus da floresta seriam atendidas.

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David Nogueira - Autor
Sobre o autor
David Nogueira - Autor
dincruz7@gmail.com
Porto Velho - RO
Membro desde 03/2026

Atuo como assistente terapêutico e treinador em análise do comportamento em uma clínica de neurodesenvolvimento; estudante de psicologia, dono de casa, mas, principalmente, apaixonado por leitura e o mundo da fantasia.

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04/04/2026 17:36
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Sobre este blog
O livro A Grande Floresta conta a história de um dos eventos mais importantes do universo: A Cruzada das Plumas, a guerra que dividiu o clã mais poderoso de Akakor, a própria família real-imperial, intrígas políticas, de sucessão e poder territorial.
Em um mundo onde apenas as américas existem (sem esse nome, pois não houve algúem de fora que o nomeasse) dividido entre dois reinos poderosos: Akakor, localizado no território conhecido desde sempre como a Grande Floresta e Jardim Dourado, o reino dourado dos quéchuas. Ambos os impérios possuem poder bélico que os igualam, se fazendo essencial a relação diplomática que evitaria a destruição de ambos. Contudo, ambos enfrentam intrígas territóriais e de poder velados. Agora, com a Cruzada das Plumas e a divisão dos clãs akanos, Akakor tenta sobreviver às instabilidades, enquanto Jardim Dourado parece planejar finalmente sua invasão ao território akano para a conquista.
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