Essa é uma pergunta simples só na aparência. Em muitos ambientes evangélicos, a resposta costuma ser reduzida demais: “basta crer em Jesus”. A frase parece correta, mas é incompleta. Afinal, quem é esse Jesus? O Cristo revelado nas Escrituras ou uma versão moldada pela experiência pessoal? O Filho eterno de Deus encarnado ou apenas um nome religioso genérico?
A teologia reformada responde com mais precisão. Ela não responde com minimalismo, mas também não cai em exageros artificiais. Ela procura responder como a própria Escritura responde. E, dentro da teologia reformada, a Confissão de Fé de Westminster e os Catecismos Maior e Breve ajudam a formular isso com clareza.
A fé não nasce da imaginação
A Confissão de Fé de Westminster 14.2 afirma:
“Por esta fé o cristão crê ser verdadeiro tudo quanto é revelado na Palavra, pela autoridade do próprio Deus que fala nela...”
Esse ponto é decisivo. O cristão não crê porque algo lhe parece inspirador, útil ou emocionalmente confortador. Ele crê porque Deus revelou. A base da fé não é a intensidade da experiência humana, mas a autoridade do Deus que fala nas Escrituras.
Isso corrige um erro comum do nosso tempo: tratar a fé como se fosse apenas um sentimento religioso privado. A fé cristã não é um salto no escuro. Não é uma projeção psicológica. Não é uma preferência espiritual. A fé cristã tem objeto, conteúdo e fundamento. Ela recebe como verdadeiro aquilo que Deus revelou.
Então a pergunta “em que deve crer um cristão?” não pode ser respondida com fórmulas vagas.
A resposta precisa começar aqui: um cristão deve crer na verdade revelada por Deus em sua Palavra.
Não basta falar em “Jesus”
Muita confusão entra na igreja exatamente neste ponto. Há quem diga que doutrina divide e que o importante é apenas “ter Jesus no coração”. Isso soa piedoso, mas é fraco. Mais que isso: pode ser perigoso.
O Catecismo Breve de Westminster 86 define a fé em Jesus Cristo assim:
“A fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual o recebemos e confiamos só nele para a salvação, como ele nos é oferecido no evangelho.”
A frase final precisa ser destacada: “como ele nos é oferecido no evangelho”. Isso exclui qualquer “cristo” inventado. Não somos salvos por um Cristo produzido por tradição popular, emoção religiosa ou imaginação subjetiva. Somos salvos por Cristo tal como é oferecido no evangelho.
Isso significa que não basta dizer “eu creio em Jesus”. É necessário perguntar: em qual Jesus? No mestre moral? No terapeuta espiritual? No símbolo de amor? No libertador político? No amigo imaginário de uma religiosidade sentimental?
A fé salvadora recebe Cristo como:
- verdadeiro Deus;
- verdadeiro homem;
- Filho eterno do Pai;
- concebido pelo Espírito Santo;
- nascido da virgem Maria;
- crucificado;
- ressuscitado corporalmente;
- exaltado à direita do Pai;
- vindo outra vez para julgar vivos e mortos.
Um “Jesus” sem encarnação real, sem expiação, sem justiça, sem ressurreição, sem senhorio e sem juízo final não é o Cristo do evangelho.
A fé recebe a verdade toda
Aqui é importante evitar dois erros.
O primeiro erro é o minimalismo: reduzir o cristianismo a um núcleo tão pequeno que já não preserve o cristianismo. O segundo erro é o maximalismo: transformar toda opinião secundária em condição de salvação.
Westminster evita os dois. A CFW 14.2 diz que a fé crê “tudo quanto é revelado na Palavra”. Isso mostra que a fé cristã não seleciona partes da revelação divina conforme conveniência. O cristão não tem autoridade para montar uma fé sob medida.
Ao mesmo tempo, isso não significa que todo crente precise ter a mesma maturidade teológica em cada tema. Há diferença entre o conteúdo objetivo da fé cristã e o grau de compreensão subjetiva de cada crente. Um novo convertido não domina tudo com a mesma clareza de um cristão maduro. Mas a fé verdadeira aponta na direção certa: ela se submete à totalidade da revelação de Deus.
Esse ponto é importante porque hoje muitos querem um cristianismo sem doutrina de Deus, sem doutrina do pecado, sem doutrina da igreja, sem doutrina dos sacramentos, sem doutrina do juízo final. Querem Cristo, mas sem o contexto da verdade revelada que dá sentido a Cristo. Isso não se sustenta.
O Deus em quem cremos
Se a fé crê em tudo quanto Deus revelou, então ela é necessariamente teológica no sentido mais básico: ela crê em Deus conforme Deus se revelou.
O cristão não crê num ser supremo genérico. Ele crê no Deus Triúno. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são três deuses, nem três modos passageiros de uma mesma pessoa. Há um só Deus em três pessoas, da mesma substância, poder e eternidade.
Isso não é detalhe periférico. Isso pertence ao coração da fé cristã. Sem Trindade, não há cristianismo.
Sem o Pai que envia, o Filho que redime e o Espírito que aplica, o evangelho é desfigurado.
Da mesma forma, o cristão crê que Deus é o Criador de todas as coisas e o Senhor providente sobre tudo. O mundo não está solto, não é autônomo e não caminha ao acaso. Deus sustenta, governa e dirige todas as coisas segundo o conselho da sua vontade.
Sem essa doutrina, a fé fica sentimental e instável. Com ela, o cristão entende que sua salvação não acontece num universo desgovernado, mas sob o governo sábio do Deus vivo.
O homem não está apenas ferido
Outra marca da fé bíblica é a seriedade com que trata o pecado.
O homem não está apenas confuso, carente ou moralmente incompleto. O homem caiu em Adão e está, por natureza, culpado e corrompido.
Sem isso, o evangelho perde profundidade. Se o pecado for reduzido a fraqueza emocional, Cristo vira apenas apoio psicológico. Se o pecado for reduzido a ignorância, Cristo vira apenas mestre. Mas se o pecado é culpa real diante de Deus santo, então Cristo é visto como o que de fato é: Substituto, Redentor e Mediador.
A fé cristã crê na verdade sobre Deus, mas crê também na verdade sobre o homem. E essa verdade é humilhante. O homem não se salva. Não coopera com sua regeneração. Não produz a nova vida por esforço moral.
Ele precisa de graça soberana.
Cristo e sua justiça
O Catecismo Maior de Westminster 72 aprofunda ainda mais a questão:
“A fé justificadora é uma graça salvadora, operada no coração do pecador pelo Espírito e pela Palavra de Deus, pela qual ele, convencido do seu pecado e miséria, e da incapacidade sua e de todas as demais criaturas para o tirar do seu estado perdido, não somente aceita a verdade da promessa do evangelho, mas recebe e descansa em Cristo e na sua justiça, que lhe são apresentados no evangelho, para perdão dos pecados, e para que a sua pessoa seja aceita e reputada justa diante de Deus para salvação.”
Esse texto é rico demais para ser tratado superficialmente.
- Primeiro: a fé justificadora é graça salvadora. Ela não é produção autônoma do pecador.
- Segundo: ela é operada pelo Espírito e pela Palavra. Não nasce do nada.
- Terceiro: ela inclui convicção de pecado e incapacidade.
- Quarto: ela não apenas aceita uma ideia; ela recebe e descansa em Cristo e na sua justiça.
Aqui está uma diferença importante em relação ao evangelicalismo raso. A fé não é mera concordância mental, nem mera decisão externa. A fé é o instrumento pelo qual o pecador recebe Cristo e repousa em sua justiça.
Note a precisão: não apenas em Cristo de modo vago, mas em Cristo e na sua justiça. O pecador é aceito diante de Deus não porque passou a ter uma experiência religiosa, mas porque recebe pela fé a justiça do Mediador. Isso é muito mais sólido do que a linguagem frouxa de “entregar a vida” sem definição doutrinária.
O evangelho não é uma mensagem magra
Quando o CBW 86 diz que recebemos e confiamos em Cristo “como ele nos é oferecido no evangelho”, e quando o CMW 72 diz que a fé recebe Cristo e sua justiça, fica claro que o evangelho não é uma mensagem magra.
O evangelho inclui:
- quem Deus é;
- quem o homem é;
- o que é o pecado;
- quem é Cristo;
- o que Cristo fez;
- como o Espírito aplica essa obra;
- como o pecador é justificado;
- em que comunidade Deus reúne seu povo;
- que esperança futura está assegurada aos crentes.
Um evangelho sem doutrina de Deus é fraco.
Um evangelho sem doutrina do pecado é sentimental.
Um evangelho sem expiação é moralista.
Um evangelho sem justiça imputada é confuso.
Um evangelho sem igreja é individualista.
Um evangelho sem ressurreição e juízo é incompleto.
Por isso a fé reformada não aceita a mutilação moderna da mensagem cristã.
A igreja importa
Um erro recorrente do cristianismo contemporâneo é imaginar que se pode ter Cristo sem igreja. Isso é uma distorção séria.
O Cristo oferecido no evangelho é o mesmo Cristo que reúne para si um povo, institui meios de graça e governa sua igreja por sua Palavra. O cristão verdadeiro não é salvo para o isolamento. Ele é incorporado à comunhão visível dos santos.
Isso não significa que a igreja salve por si mesma. Mas significa que o Deus que salva também administra ordinariamente sua graça na igreja, por meio da pregação da Palavra, do batismo e da Ceia do Senhor.
Quem reduz a fé a um vínculo privado entre “eu e Jesus” já se afastou da forma bíblica da vida cristã. O Novo Testamento não conhece discípulo sem corpo, nem fé sem comunhão, nem piedade sem submissão à ordem estabelecida por Cristo.
A fé olha para frente
A fé cristã não termina na conversão. Ela também é escatológica. O cristão crê no perdão dos pecados, mas crê também na ressurreição do corpo, na volta visível de Cristo, no juízo final e na vida eterna.
Isso é importante porque muita linguagem religiosa hoje só fala de melhora emocional, estabilidade familiar ou propósito terreno. Tudo isso pode até aparecer como consequência secundária, mas não é o centro. O centro é que Cristo morreu, ressuscitou, reina e voltará.
Sem essa esperança, o cristianismo se torna pragmatismo moral. Com essa esperança, o crente vive neste mundo com firmeza, sabendo que sua história caminha para a consumação do reino de Deus.
Nem pouco demais, nem coisa demais
Então, em que deve crer um cristão?
A resposta reformada não é: “quase nada”.
Mas também não é: “toda controvérsia teológica já resolvida em cada detalhe”.
Ela é mais precisa.
Segundo a CFW 14.2, o cristão crê ser verdadeiro tudo quanto é revelado na Palavra.
Segundo o CMW 72, a fé justificadora aceita a verdade da promessa do evangelho e recebe e descansa em Cristo e na sua justiça.
Segundo o CBW 86, a fé em Jesus Cristo é recebê-lo e confiar somente nele para a salvação como ele é oferecido no evangelho.
Essa tríplice formulação é forte e equilibrada. Ela evita a superficialidade e evita o exagero. Ela não entrega um cristianismo vazio, nem um sistema arbitrariamente inflado.
A resposta de Westminster
Se a pergunta é “em que deve crer um cristão?”, a resposta de Westminster pode ser resumida assim:
O cristão deve crer em tudo quanto Deus revelou em sua Palavra, e deve receber e descansar somente em Cristo e em sua justiça, tal como ele é oferecido no evangelho.
Isso inclui a verdade sobre:
- o Deus Triúno;
- a criação e a providência;
- a queda e o pecado;
- a pessoa e a obra de Cristo;
- a justificação pela graça mediante a fé;
- a obra do Espírito;
- a igreja e os meios de graça;
- a ressurreição, o juízo e a vida eterna.
A fé cristã tem conteúdo. Tem forma. Tem objeto. Tem fronteiras. Não é uma névoa espiritual. Não é uma experiência sem doutrina. Não é um amontoado de slogans religiosos.
A igreja do nosso tempo perdeu muito ao tentar tornar a fé mais simples do que a Escritura a apresenta. O resultado não foi pureza, mas empobrecimento. Quando o conteúdo da fé é reduzido demais, o próprio Cristo logo passa a ser mal compreendido.
Por isso, a pergunta continua necessária. E a resposta continua firme: um cristão deve crer no que Deus revelou e deve confiar somente no Cristo do evangelho.
Referências
ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. Catecismo Maior de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. Catecismo Breve de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.