A pergunta acerca do valor humano jamais permaneceu restrita ao campo econômico. Ainda que a modernidade frequentemente reduza o homem à sua capacidade produtiva, à sua influência social ou ao acúmulo de capital, a questão do valor sempre foi substancialmente mais profunda do que qualquer análise material poderia alcançar.
O homem deseja justificar sua própria existência. Deseja encontrar uma razão objetiva para considerar-se relevante. Necessita atribuir significado a si mesmo. E, inevitavelmente, toda civilização constrói mecanismos para satisfazer essa necessidade.
Alguns procuram valor na força. Outros na inteligência. Outros no reconhecimento público. Outros na moralidade. A diversidade das respostas não elimina a unidade do problema.
A pergunta permanece a mesma:
Quanto você vale?
O homem raramente responde essa pergunta olhando para Deus.
Normalmente olha para si mesmo.
Procura algo interno que possa apresentar como fundamento de importância: competência, virtude, conhecimento, disciplina, influência ou desempenho. Deseja encontrar algum elemento que justifique sua relevância e lhe permita sustentar uma identidade diante de si mesmo e diante dos outros.
Até mesmo a religião pode ser transformada nesse mecanismo.
O orgulho secular é facilmente identificado.
O orgulho religioso, não.
Existe uma espécie de vaidade que aprende a vestir-se de piedade. Ela abandona os adornos mundanos não porque tenha sido verdadeiramente mortificada, mas porque descobriu uma forma mais refinada de alimentar a si mesma.
O homem religioso frequentemente substitui antigos critérios por novos. Troca a exaltação do corpo pela exaltação intelectual. Troca o reconhecimento social pela superioridade espiritual. Troca a arrogância mundana pela arrogância doutrinária.
Aquilo que antes era procurado no mundo agora passa a ser procurado dentro da própria religião:
valor.
Isso não constitui um problema exclusivo de uma tradição específica. O pecado humano possui extraordinária capacidade de adaptação. Ele sobrevive em estruturas distintas, linguagens distintas e contextos distintos.
O coração humano permanece essencialmente o mesmo.
O homem religioso pode orgulhar-se de sua ortodoxia, de sua tradição, de sua experiência espiritual, de sua disciplina moral, de seu conhecimento teológico ou até mesmo de sua própria consciência da miséria humana.
A forma varia.
O princípio permanece.
Aquilo que deveria conduzi-lo à humildade diante de Deus torna-se fundamento de distinção pessoal.
Nada revela tão profundamente a corrupção humana quanto a capacidade de utilizar até mesmo a verdade divina como instrumento de autoexaltação.
O problema não reside na existência da verdade objetiva. O cristianismo histórico jamais sobreviveu sustentando relativismos teológicos. A verdade deve ser afirmada. O erro deve ser combatido. A ortodoxia possui importância real. A Escritura não trata doutrina como questão secundária.
Entretanto, existe uma diferença decisiva entre receber a verdade como revelação e utilizá-la como fundamento identitário.
No primeiro caso, a verdade conduz à adoração.
No segundo, converte-se em instrumento de superioridade.
O homem passa então a extrair valor não mais da riqueza, da influência ou da reputação, mas da própria religião.
Sua identidade deixa de repousar na obra de Deus e passa a repousar na percepção de excelência que constrói acerca de si mesmo.
Esse mecanismo é particularmente sutil porque preserva linguagem piedosa enquanto mantém intacta a estrutura do orgulho secular.
Apenas muda o objeto.
O centro permanece o mesmo.
O eu.
A história da religião demonstra repetidamente que o homem prefere utilizar Deus como instrumento de autopreservação moral em vez de submeter-se verdadeiramente à soberania divina. A religião frequentemente torna-se apenas um sistema sofisticado de justificação pessoal.
O homem deseja apresentar algo.
Deseja possuir um fundamento interno para sua própria glória.
O fariseu da parábola em Lucas 18 não era irreligioso. Não era moralmente decadente. Não era indiferente às questões espirituais.
Pelo contrário.
Era moralmente disciplinado, religiosamente ativo e externamente irrepreensível.
Seu problema não consistia na ausência de religião.
Consistia na resposta que dava para a pergunta do valor.
“Não sou como os demais homens.”
Talvez nenhuma frase revele tão claramente a inclinação natural do coração religioso.
O homem deseja distinguir-se. Deseja pertencer à categoria correta. Deseja encontrar algum aspecto no qual possa considerar-se superior ao próximo.
Quando não encontra isso no mundo secular, tenta encontrá-lo na religião.
E isso manifesta-se de formas extremamente sutis.
Há indivíduos cuja identidade repousa na convicção de serem os mais corretos. Outros dependem da sensação de pertencerem ao grupo mais puro. Alguns encontram estabilidade na própria superioridade intelectual. Outros transformam discernimento teológico em fundamento de exaltação pessoal.
Existe algo profundamente irônico nisso.
O homem caído utiliza até mesmo a doutrina da graça para alimentar o ego.
Aquele que afirma a incapacidade humana frequentemente age como se sua própria superioridade espiritual tivesse sido produzida por esforço intelectual. O indivíduo que corretamente afirma a soberania divina por vezes manifesta uma autossuficiência incompatível com aquilo que sua própria teologia deveria produzir.
Talvez uma das evidências mais claras disso seja o esquecimento.
Muitos esquecem de onde foram tirados.
Esquecem quem eram antes da graça.
Esquecem a própria miséria moral.
Esquecem a cegueira espiritual, a rebelião e a incapacidade de aproximarem-se de Deus por iniciativa própria.
Com o passar do tempo, alguns passam a falar da graça como quem descreve uma teoria, não como quem foi arrancado da morte.
Esquecem que outrora também estavam perdidos.
Que antes da misericórdia divina não possuíam qualquer suspiro espiritual.
Que a diferença entre o convertido e o ímpio não reside numa superioridade natural, mas exclusivamente na intervenção soberana de Deus.
Isso torna o orgulho religioso ainda mais irracional.
Pois se a salvação é inteiramente pela graça, então toda exaltação humana torna-se contraditória.
Nenhum homem pode vangloriar-se de haver compreendido a verdade como se sua própria mente fosse naturalmente mais pura, mais elevada ou mais virtuosa do que a dos demais.
O conhecimento verdadeiro de Deus não nasce da superioridade moral da criatura.
Nasce da revelação divina.
A epistemologia cristã destrói o orgulho humano precisamente porque submete toda possibilidade de conhecimento verdadeiro à revelação.
O homem não descobre Deus autonomamente.
Deus revela-se.
E essa revelação não existe para produzir aristocracias espirituais, mas para conduzir pecadores ao arrependimento.
Quando a verdade produz arrogância constante, existe motivo legítimo para perguntar se ela foi realmente compreendida.
Porque compreender corretamente a santidade divina inevitavelmente produz consciência da própria miséria.
Isaías não respondeu à visão de Deus com autoadmiração teológica.
Respondeu:
“Ai de mim.”
Pedro não contemplou o poder de Cristo e concluiu sua superioridade espiritual.
Caiu de joelhos:
“Retira-te de mim, porque sou pecador.”
Paulo, talvez o maior intelecto apostólico, jamais utilizou a graça como fundamento de vanglória.
Considerava-se o principal dos pecadores.
A consciência genuína de Deus esmaga a autossuficiência humana.
E aqui a pergunta inicial retorna com força ainda maior:
Qual é o valor do homem?
A modernidade responde apelando para dignidade humana abstrata.
O existencialismo responde apelando para construção subjetiva de significado.
O humanismo secular tenta fundamentar valor na própria racionalidade humana.
Entretanto, todas essas respostas fracassam porque ignoram a condição real da humanidade diante de Deus.
O homem não é valioso porque produz.
Não é valioso porque pensa.
Não é valioso porque sente.
Não é valioso porque pertence ao grupo correto.
Separado de Deus, encontra-se moralmente arruinado. Sua vontade é corrompida. Seus afetos são desordenados. Sua razão encontra-se obscurecida pelo pecado.
A Escritura não oferece espaço para triunfalismos antropológicos.
Entretanto, paradoxalmente, é justamente no evangelho que o homem encontra a única base verdadeira para compreender seu valor.
Não um valor fundamentado em mérito intrínseco.
Não um valor fundamentado em excelência moral autônoma.
Mas um valor revelado pelo preço da redenção.
A cruz de Cristo constitui simultaneamente a maior humilhação do homem e a maior demonstração do amor divino.
Ela humilha porque revela a profundidade do pecado humano.
Se a redenção exigiu a morte do Filho de Deus, então o homem encontra-se muito mais corrompido do que imagina.
A cruz destrói toda fantasia de bondade natural.
Mas ela também revela algo extraordinário:
Deus decidiu salvar pecadores.
Não mediante ouro ou prata.
Não mediante filosofia.
Não mediante mérito religioso.
Mas mediante o sangue de Cristo.
Esse é o verdadeiro centro da questão.
O homem religioso procura valor em sua performance espiritual.
O evangelho remove completamente essa possibilidade.
O cristão não pode fundamentar sua identidade na própria superioridade porque toda sua esperança repousa exclusivamente numa justiça externa:
a justiça de Cristo.
Diante da cruz, o intelectual e o ignorante encontram-se igualmente dependentes da graça.
O moralista e o libertino encontram-se igualmente condenados sem Cristo.
Toda vanglória morre no Calvário.
Ali terminam as pretensões humanas.
A cruz destrói simultaneamente duas ilusões: a de que o homem possui mérito suficiente para salvar-se e a de que não possui qualquer valor diante de Deus.
Ela humilha porque revela a profundidade do pecado.
Mas também exalta porque revela a profundidade do amor divino.
E talvez essa seja a maior de todas as verdades:
o homem vale menos do que imagina e mais do que ousaria acreditar.
Vale menos porque seu pecado exigiu a morte do Filho de Deus.
Vale mais porque o Filho de Deus voluntariamente morreu para redimir pecadores.
Nenhuma filosofia resolveu essa tensão.
Nenhum sistema humano conseguiu sustentá-la.
Somente o evangelho.
O homem não encontra seu valor olhando para dentro de si.
Não o encontra em sua moralidade.
Não o encontra em sua tradição.
Não o encontra em sua capacidade religiosa.
Encontra-o exclusivamente em Cristo.
Porque o verdadeiro valor do homem não é determinado por aquilo que ele pensa acerca de si mesmo.
Nem pelo que o mundo pensa.
Nem pelo que produziu.
Nem pelo que acumulou.
O valor do homem é visto no preço da redenção.
E o preço foi o sangue do próprio Filho de Deus.
Então a pergunta retorna uma última vez:
Quanto você vale?
Vale o suficiente para que Deus não o deixasse entregue à própria ruína.
Vale o suficiente para que Cristo entrasse na história, carregasse a culpa e suportasse a cruz.
Não porque houvesse mérito no pecador.
Mas porque houve amor no Redentor.
Quer compreender seu valor?
Então não comece olhando para suas virtudes.
Olhe para os seus pecados.
Pense na culpa que você já acumulou. Pense na corrupção que ainda habita em você. Pense no peso de uma vida inteira diante da santidade absoluta de Deus.
E mesmo assim, isso seria apenas uma pequena fração do custo real da redenção.
Porque na cruz não foi pago apenas o preço de um erro isolado, de uma fase ruim ou de algumas transgressões esquecidas.
Foi paga a culpa de pecadores inteiros.
Todo pecado conhecido.
Todo pecado escondido.
Todo pecado passado.
Todo pecado futuro.
Toda dívida que jamais poderíamos quitar.
E o preço não foi prata, ouro, penitência ou esforço humano.
Foi o sangue do nosso Salvador.
Então, quer saber quanto você vale?
Olhe para a cruz.
Ali você verá, ao mesmo tempo, a gravidade do seu pecado e a grandeza do amor de Cristo.
“Porque fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, não por coisas corruptíveis, como prata ou ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de cordeiro sem defeito e sem mácula.”
— 1 Pedro 1:18–19
“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.”
— 2 Coríntios 5:21
“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.”
— Romanos 5:8