Havia um tempo em que a infância não passava pela internet. Ela acontecia no quintal, na rua, no portão aberto, na bola de fim de tarde, no grito da mãe chamando de longe e na avó resolvendo, com firmeza, os pequenos desastres que a criança produzia quase todos os dias.
Era uma infância vivida no corpo: no pé descalço que achava bicho de pé, no susto ao pisar perto demais de um prego enferrujado, na ponta do dedo esfolada da bola, nas cicatrizes de quedas que mal davam tempo de cicatrizar antes da próxima aventura.
Havia também a disciplina. Não esse modelo moderno em que tudo precisa virar uma mesa-redonda. Era um tipo de correção mais direta, mais seca, às vezes até dura demais. Nem tudo ali era justo, e não há motivo para maquiar isso. Mas havia algo muito claro: limite existia, consequência existia, respeito existia.
As mães e avós daquele tempo eram figuras curiosas. Cuidavam e corrigiam quase ao mesmo tempo. Tiravam bicho de pé com espinho de limoeiro, passavam remédio ardendo sem muito teatro e ainda entregavam a bronca completa por você ter inventado moda. Amor e dureza vinham no mesmo pacote.
As meninas, muitas vezes, tinham uma boneca só. E aquela única boneca bastava para tudo. Virava filha, amiga, companhia, paciente, princesa. Havia pouco, mas o pouco ganhava valor. Os meninos e meninas aprendiam a inventar mundos com quase nada: caixa virava ônibus, pano virava capa, quintal virava estádio. A imaginação fazia o resto.
Não era uma infância confortável. Era áspera. Tinha poeira, joelho ralado, remédio queimando, lágrima engolida e algum medo de aprontar além da conta. Mas era inteira. A vida acontecia sem tanta mediação. A memória era feita menos de registro e mais de presença.
Claro: nem toda lembrança antiga merece aplauso automático. Nem toda disciplina foi sábia. Nem toda dureza educou. O passado não fica certo só porque ficou longe. Mas havia naquela infância algo que hoje parece faltar: resistência ao desconforto, imaginação treinada pela escassez e uma noção muito concreta de que nem tudo na vida seria confortável.
Talvez seja isso que provoque essa saudade meio contraditória. Não porque foi uma época perfeita. Não foi. Mas porque foi vivida com mais corpo, mais presença, mais realidade.
Saudosismo não é saudável quando vira morada. O passado não foi justo nem leve o tempo todo. Mas seria bom visitar aquilo outra vez, nem que fosse por um instante. Não para fugir do presente, e sim para lembrar como era uma vida menos filtrada, menos mediada, menos artificial.
A gente não deve morar na saudade. Mas, às vezes, ainda faz bem sentar um pouco na varanda dela.
Afinal, quem da minha geração não aprendeu que: “Se correr, é pior”?
E daqui a 40 anos, o que será que vão escrever sobre a infância de hoje?