Há uma satisfação difícil de explicar em reencontrar uma obra escrita por uma versão muito anterior de nós mesmos. Não porque ela permaneça perfeita, mas porque registra, com honestidade, quem éramos quando ainda não sabíamos quem nos tornaríamos.
Entre 2007 e 2008, escrevi um romance. Na época, eu não tinha uma editora, não conhecia o funcionamento do mercado editorial e tampouco imaginava o caminho que meus projetos seguiriam nos anos seguintes. Escrevia porque havia uma história que precisava existir.
Então, o manuscrito desapareceu.
Com o passar dos anos, mudanças de computadores, cópias perdidas e a própria rotina fizeram com que eu acreditasse que aquele livro havia se perdido definitivamente. Não havia mais o texto, apenas a lembrança de tê-lo escrito.
Durante muito tempo, aceitei que aquela história talvez jamais fosse lida.
Foi apenas em 2025 que, quase por acaso, reencontrei o manuscrito. Arquivado entre antigos backups (em um antigo e-mail), ele sobreviveu ao tempo de uma forma que eu jamais imaginaria. Abri o arquivo depois de tantos anos como quem encontra uma carta escrita por alguém muito próximo, mas que já não existe da mesma maneira.
Não era apenas um livro.
Era um diálogo com uma versão de mim que havia permanecido em silêncio por quase duas décadas.
Neste mês, finalmente, ele foi publicado.
Poderia dizer que realizei um sonho antigo. Mas essa expressão talvez simplifique demais o que realmente aconteceu. Sonhos costumam sugerir um movimento contínuo em direção a um objetivo. Este livro, ao contrário, passou anos desaparecido. E, curiosamente, foi justamente essa ausência que lhe deu outro significado.
Há uma tendência contemporânea de valorizar apenas aquilo que produz resultados imediatos. Espera-se que ideias sejam executadas rapidamente, projetos sejam concluídos em meses e conquistas apareçam quase em tempo real. No entanto, algumas realizações desafiam essa lógica. Elas amadurecem em outra escala de tempo.
Nem tudo o que desaparece está perdido.
Às vezes, apenas espera o momento de ser reencontrado.
Publicar um livro escrito quase vinte anos atrás não significou voltar ao passado. Significou estabelecer um diálogo entre duas versões da mesma pessoa: aquela que acreditou que a história merecia ser escrita e aquela que, muitos anos depois, teve o privilégio inesperado de encontrá-la novamente.
Esse intervalo ensina algo que dificilmente aprendemos com rapidez: a perseverança nem sempre consiste em seguir caminhando sem parar. Às vezes, ela consiste em reconhecer o valor de algo quando a vida nos concede uma segunda oportunidade.
Vivemos cercados pela ideia de grandes marcos: grandes projetos, grandes conquistas, grandes mudanças. Mas a experiência costuma ser mais discreta. A vida é construída por pequenas decisões, pequenos reencontros e pequenas alegrias que, somadas, acabam definindo uma existência inteira.
Talvez por isso eu tenha escolhido este título.
Porque, no fim, a alegria não veio apenas da publicação do livro. Ela veio do improvável. Da descoberta de que um texto escrito entre 2007 e 2008, dado como perdido durante tantos anos e reencontrado apenas em 2025, ainda tinha algo a dizer.
Algumas histórias esperam meses para serem contadas.
Outras esperam quase vinte anos.
E isso também faz parte da história.
Pequenas coisas, de fato, trazem grandes alegrias.
Foi assim que nasceu, ou melhor, renasceu, As Mulheres do Blackout. Escrito entre 2007 e 2008, perdido por anos, reencontrado em 2025 e, finalmente, publicado neste mês pela Editora DPN. Um livro que atravessou quase duas décadas antes de chegar aos leitores, lembrando-me de que algumas obras não encontram seu tempo quando são escritas, mas quando finalmente podem ser lidas.