Pega uma xícara de chá (ou de café, se você for do time que ainda tem coragem a esta hora) e senta aqui comigo.
Olhei para o relógio agora e… 21h24 da noite.
Sim, eu acabei de desligar a máquina por alguns minutos para respirar, mas a verdade nua e crua é uma só: eu ainda não terminei por hoje.
Se você desse uma olhada no meu atelier neste exato momento, veria uma cena digna de filme de comédia: rolos de tecidos que parecem ter vida própria, tesouras espalhadas, fita métrica pendurada no pescoço como se fosse um colar de alta costura e uma pilha de encomendas que me olha nos olhos e pisca!
Estas duas últimas semanas foram um verdadeiro furacão. Sabe aquele meme do "modo multitarefas ativado em 300%"? Sou eu. E as próximas semanas prometem seguir exatamente no mesmo ritmo frenético. Às vezes a gente quase pede para o dia ter umas 48 horas — embora, pensando bem, se tivesse 48 horas, a gente provavelmente inventaria mais 20 tarefas para colocar no meio!
Mas quer saber o que é o mais doido de tudo isso? Eu não estou cansada.
Claro que o corpo sente o baque de horas em pé, mas a alma está leve. O que está martelando aqui dentro é aquela ansiedade boa, aquele friozinho na barriga de quem ama o que faz e não vê a hora de ver cada peça pronta, linda e entregue no prazo perfeito para cada cliente.
A Teologia dos Mínimos Detalhes
No meio desse turbilhão, enquanto eu estava ali, de olhos fixos no tecido, alinhando uma barra, ajustando um zíper e conferindo cada milímetro de uma costura, algo muito especial aconteceu. Pareceu um sussurro suave no meu peito.
Percebi que, enquanto eu cuidava minuciosamente de cada detalhe daquelas roupas, Deus estava cuidando minuciosamente de cada detalhe da minha vida.
Pode parecer bobagem para quem vê de fora — "Nossa, mas ver Deus numa dobra de tecido?" —, mas não é.
Isso me fez lembrar do clássico livro A Prática da Presença de Deus, do Irmão Lourenço (Brother Lawrence). Ele era um monge que trabalhava na cozinha de um mosteiro, cercado por panelas engorduradas e louça para lavar. E ele dizia algo revolucionário: que encontrava a mesma presença de Deus no meio do barulho das panelas do que no silêncio das orações. Ele aprendeu a fazer as coisas mais banais por amor a Deus, transformando o trabalho diário em um ato contínuo de adoração.
O teólogo A. W. Tozer, no seu livro Em Busca de Deus, fala sobre a ilusão de dividir a vida entre o "sagrado" e o "secular". A gente costuma achar que Deus só está presente no culto de domingo ou na hora do devocional matinal. Mas Tozer nos lembra que toda a vida do cristão é sagrada. A bancada do atelier, a máquina de costura, o balcão da loja ou a mesa do escritório são tão sagrados quanto o altar da igreja quando fazemos tudo para a glória d'Ele!
Como escreveu o apóstolo Paulo lá em Colossenses 3:23: "Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens."
O Avesso da Tapeçaria
Às vezes, a nossa rotina parece a parte de trás de uma bordado ou de uma peça de roupa em ajuste: um amontoado de fios soltos, nós estranhos e retalhos que não fazem o menor sentido. A gente olha e pensa: "Que bagunça!".
Mas Deus é o Mestre Costureiro. Ele está do outro lado da peça, passando a linha com uma precisão cirúrgica.
Jesus disse em Mateus 6:28-30 que se Deus veste com tanto luxo e detalhe os lírios do campo — que hoje existem e amanhã são lançados no fogo —, como não cuidaria de nós? Se Ele se importa com as pétalas de uma flor que ninguém vê no meio do mato, é claro que Ele está atento às nossas forças no final de um dia exaustivo! E como nos lembra o Salmo 121:3-4, Aquele que guarda a nossa vida não dorme e nem cochila — mesmo quando já passa das nove da noite no atelier.
Engrandecendo ao Senhor no Meio da Labuta
Todos esses dias, equilibrando mil pratos ao mesmo tempo, eu não deixei de engrandecer ao meu Senhor. A cada peça finalizada, a cada pepino resolvido, a cada linha que passou pelo buraco da agulha de primeira (o que cá entre nós, depois das 20h, já é um milagre divino!), meu coração se alegrava d'Ele.
Deus tem cuidado de mim. Tem renovado minhas energias, sustentado minha mente e me lembrado de que a minha identidade não está na quantidade de tarefas que eu entrego, mas no amor incondicional que Ele tem por mim.
No fim das contas, a pilha de encomendas pode até estar alta, mas a graça de Deus cobrindo a minha vida é infinitamente maior.
E você que está lendo isso agora? Seja na costura, na planilha do Excel, cuidando da casa ou estudando para aquela prova cabeluda... você tem conseguido enxergar o cuidado de Deus nos mínimos detalhes do seu dia a dia?
Da próxima vez que o trabalho apertar, lembra disso: Ele está aí com você, ajustando cada detalhe da sua história com todo o carinho do mundo.
Um abraço bem apertado, vou voltar ali para dar mais uns pontos na máquina, e até o próximo post!