A frase “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador” é muito repetida em ambientes cristãos. À primeira vista, ela parece piedosa, equilibrada e pastoral. O problema é que, quando usada sem cuidado, ela pode transmitir uma ideia incompleta — e até distorcida — sobre Deus, o pecado, a justiça divina e a salvação.
É verdade que a Escritura apresenta um sentido amplo da bondade e do amor de Deus. Deus sustenta a criação, concede vida, preserva o mundo, envia chuva, alimento e benefícios até mesmo sobre pessoas que não o reconhecem. Nesse sentido, podemos falar de uma benevolência geral de Deus para com suas criaturas.
Mas essa não é a única forma de falar do amor divino.
A Bíblia também ensina que há um amor especial, redentor e salvífico de Deus pelo seu povo. Esse amor não é meramente uma disposição genérica, mas uma ação eficaz pela qual Deus chama pecadores, une-os a Cristo, perdoa seus pecados e os conduz à vida eterna. Esse amor salvador não é derramado indistintamente sobre todos da mesma maneira, mas sobre aqueles que Deus, em sua graça, traz a Cristo.
Por isso, a frase precisa ser qualificada.
O pecado não existe como uma coisa isolada, solta no ar, separada de quem o pratica. Não é como se o pecado fosse uma entidade autônoma e o pecador apenas uma vítima passiva, sem responsabilidade moral. A Escritura trata o pecado como algo que procede do coração humano. Tiago 1.14-15 mostra que a tentação se relaciona com os desejos desordenados do próprio homem; quando amadurece, gera morte.
Portanto, não se deve falar do pecado como se ele pudesse ser completamente separado do pecador. O pecado é praticado por pessoas. Ele nasce no coração, manifesta-se em pensamentos, palavras, desejos e ações. Deus não julga abstrações morais; Deus julga pessoas moralmente responsáveis.
Esse ponto fica claro em vários textos bíblicos.
O Salmo 11.5 não diz apenas que Deus odeia a violência como conceito abstrato. O texto afirma que Deus odeia aquele que ama a violência. Ou seja, o alvo da reprovação divina não é somente o ato violento em si, mas também o indivíduo que se entrega a esse amor perverso pela violência.
Provérbios 6.16-19 segue a mesma linha. O texto fala de coisas que o Senhor abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina planos maus, pés que correm para o mal, testemunha falsa e aquele que semeia contendas. A linguagem começa falando de membros e ações, mas o sentido é claramente pessoal. Deus abomina práticas pecaminosas porque elas são expressões de pessoas pecadoras.
Romanos 9.13 também é um texto incontornável nessa discussão: “Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú”. O ponto do apóstolo Paulo, nesse contexto, é demonstrar a soberania de Deus em sua eleição. O texto não permite reduzir o “aborrecimento” divino a uma mera reprovação impessoal do pecado. A linguagem bíblica é mais forte do que muitos gostariam.
Isso significa que Deus é injusto, cruel ou arbitrário? Não. Significa que Deus é santo.
O problema da frase “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador” é que, sem explicações, ela pode enfraquecer a gravidade da culpa humana. Pode passar a impressão de que Deus está irritado apenas com os atos, mas sempre favorável ao pecador em qualquer condição. Essa não é a mensagem completa das Escrituras.
A Bíblia ensina que Deus é amor, mas também ensina que Deus é justiça, santidade e ira contra o mal. A ira divina não é descontrole emocional; é a resposta santa de Deus contra tudo aquilo que se opõe à sua natureza. Deus não trata o pecado como algo leve, porque o pecado é rebelião contra ele.
Ao mesmo tempo, é necessário evitar outro erro: falar do ódio de Deus de maneira fria, brutal ou sem evangelho. O ensino bíblico sobre a ira divina não existe para alimentar arrogância religiosa, mas para nos conduzir ao temor, ao arrependimento e à necessidade absoluta de Cristo.
O evangelho não diz que o ser humano é apenas alguém “bom” que comete erros externos. O evangelho declara que o homem é pecador, culpado e incapaz de salvar a si mesmo. Mas também anuncia que Cristo veio salvar pecadores. Na cruz, a justiça e o amor de Deus se encontram: o pecado é realmente condenado, e o pecador redimido é realmente perdoado.
Portanto, a frase popular precisa ser corrigida ou, no mínimo, explicada com cuidado.
Seria mais bíblico dizer:
Deus odeia o pecado e julga o pecador culpado; contudo, em Cristo, Deus salva pecadores por pura graça.
Essa formulação preserva melhor o ensino bíblico. Ela não separa artificialmente o pecado do pecador, não diminui a santidade de Deus, não transforma o amor divino em sentimentalismo e não enfraquece a necessidade da redenção.
Deus não é indiferente ao pecado. Deus não apenas desaprova atos maus de maneira abstrata. Ele julga o homem por aquilo que ele é, deseja e pratica. Mas Deus também salva, justifica e transforma pecadores por meio de Jesus Cristo.
Essa é a esperança do evangelho: não que Deus ignore o pecado, mas que ele o trata de forma definitiva em Cristo. O pecador não precisa de uma frase confortável; precisa de arrependimento, fé e redenção.
Porque fora de Cristo há culpa e condenação.
Mas em Cristo há perdão, reconciliação e vida eterna.
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