A vida tem um talento especial para fazer a gente sofrer por coisas extremamente comuns.
Não estou falando de decisões épicas, dessas que parecem cena final de filme. Estou falando de escolher entre coisas comuns da vida, um emprego e outro, insistir ou não num amor, perceber que certa amizade já venceu faz tempo, ou passar três horas pensando se chama alguém para sair e no fim não chama ninguém porque, aparentemente, mandar uma mensagem virou equivalente emocional a invadir um país.
É sempre assim.
Você decide não continuar com uma pessoa e, dois dias depois, sua cabeça começa a agir como advogada do relacionamento. “Mas e se tivesse dado certo?” “E se era só uma fase?” “E se você jogou fora o amor da sua vida porque estava cansado e respondeu seco numa terça-feira?”
Aí você escolhe um emprego e imediatamente começa a fantasiar o outro. Se aceitou o mais estável, imagina que o outro te daria liberdade, dinheiro, realização e talvez até uma pele melhor. Se escolheu o mais ousado, começa a sentir saudade de salário fixo, paz de espírito e almoço sem taquicardia.
A amizade ruim então é outro clássico. A pessoa te drena, te irrita, te diminui, pesa o ambiente e parece competir até em conversa boba. Mesmo assim, se afastar dá culpa, porque o ser humano gosta de manter vínculo vencido só porque um dia foi bom. É o iogurte emocional da vida: estragou, mas você continua olhando e pensando “vai que ainda dá”.
E chamar alguém para sair talvez seja uma das coisas mais idiotas e mais assustadoras da experiência humana. Porque, objetivamente, é só um convite. Mas por dentro parece que você está protocolando sua dignidade em cartório. Você escreve, apaga, reescreve, troca “quer sair?” por “vamos qualquer dia?” e depois por “kkk deixa pra lá”, tudo isso sem perceber que a outra pessoa talvez só respondesse “sim” ou “não” e seguisse a própria vida normalmente.
O grande problema de escolher é que você nunca descobre com total certeza se a outra opção era realmente melhor ou se era só a sua imaginação sendo sonsa.
A vida que você não viveu sempre parece incrível. O emprego que você não pegou era perfeito. O amor que você não insistiu era especial. A amizade que você largou talvez fosse “mais profunda do que parecia”. A mensagem que você não mandou provavelmente teria mudado sua história. Sim, claro. E na vida paralela você também deve ter postura perfeita e acordar feliz na segunda.
Talvez a frustração venha muito disso: não do erro em si, mas do costume de enfeitar a opção que ficou para trás.
Só que, honestamente, talvez isso nem importe tanto assim.
Porque essa é meio que a graça da vida.
Não saber tudo. Escolher meio no escuro. Errar achando que acertou. Acertar achando que errou. Descobrir depois que o drama era menor, que o medo era exagerado, que o “grande desastre” era só uma terça-feira mal administrada.
No fim, a vida não é sobre fazer sempre a escolha perfeita. É sobre escolher, lidar com o que veio e parar de tratar toda decisão como se fosse o último lance da final do campeonato.
Às vezes era só um emprego.
Às vezes era só um convite.
Às vezes era só uma amizade ruim mesmo.
Às vezes era só um amor que não ia.
E às vezes o que parecia o fim do mundo era só a vida seguindo, sem pedir sua opinião sobre o roteiro.
Enfim, diziam que essas eram confusões dos 16, 17 ou 18 anos. Hoje, adultos, experientes e teoricamente mais lúcidos, nós obviamente não fazemos mais disso um drama — apenas trocamos o nome da crise, colocamos roupa social e chamamos de “fase”.