Sabe aquele dia em que você acorda inspirada e decide: "Hoje eu não quero apenas existir, eu quero brilhar"? Pois bem. Me maquiei, me arrumei, fiquei me sentindo a própria definição de "bonitinha e engraçadinha". Com esse visual digno de tapete vermelho, fui encarar a minha glamorosa rotina: lavar a louça, organizar a casa e, depois, me isolar no atelier para terminar uns consertos e ajustes de roupas. Afinal, a linha e a agulha merecem ver a minha melhor versão.
Tudo ia incrivelmente bem até que cometi um "erro estratégico": liguei para um grupo de amigas por chamada de vídeo.
Bastou a câmera focar no meu rosto para o veredito vir em tempo real. Uma delas olhou bem para a tela, franziu a testa e disparou: “Menina, para que tudo isso? Eu não te conheci assim!”. Como se um rímel e um batom fossem o primeiro passo para um caminho sem volta. Para completar o Concílio Ecumênico virtual, outra amiga que estava na chamada emendou com a gravidade de um profeta: “Isso aí é pura vaidade, hein!”.
Eu, que não sou boba e conheço o Livro Sagrado, não perdi a oportunidade. Ativei meu modo teóloga e respondi na lata com Eclesiastes: “Vaidade de vaidade, tudo é vaidade!”. Se é para filosofar, vamos com o Rei Salomão!
Mas, brincadeiras à parte, depois que desliguei o telefone, fiquei com a agulha na mão e os botões na cabeça pensativos. De onde a gente tirou que Jesus está no céu, com um bloco de notas, anotando quantos miligramas de pó compacto a gente passou no rosto?
Às vezes, o meio em que a gente vive e certas tradições criam umas regras que parecem um detector de alegria. É um jugo tão pesado, uma cobrança por uma sisudez que, honestamente, não combina em nada com o carpinteiro de Nazaré que transformava água em vinho nas festas. Jesus passava o tempo acolhendo as pessoas, liberando o povo de fardos religiosos absurdos e dizendo que o que importa é o que sai do coração, não o que a gente passa na cara.
Se Salomão disse que tudo é vaidade — a maquiagem, o trabalho, correr atrás do vento —, ele também disse, no mesmo livro de Eclesiastes, que o bom da vida é a gente comer, beber e desfrutar do fruto do nosso trabalho.
Então, se o meu coração está em paz, se eu estou aqui trabalhando honestamente no meu atelier, cuidando da minha vida e fazendo meus consertos, qual o problema de fazer tudo isso com os cílios devidamente curvados? Nenhum!
A religiosidade engessada tenta colocar Deus numa caixinha cinza e sem graça. Mas eu prefiro acreditar no Deus que criou as cores, as flores e que nos deu a capacidade de achar graça na vida — e na nossa própria imagem no espelho. Na próxima chamada de vídeo, se as amigas reclamarem do batom, eu mudo o versículo e digo: “Unges a minha cabeça com óleo (e o meu rosto com iluminador), o meu cálice transborda!”. Amém?