Caso Master: documentos expõem encontro de Toffoli com Vorcaro em Londres e movimentação de R$ 35 milhões ligada ao Tayayá
Documentos do caso Banco Master confirmam que Dias Toffoli participou, em 2024, de evento em Londres patrocinado pelo banco e de uma confraternização que reuniu Daniel Vorcaro e outras autoridades. A PF também analisa R$ 35 milhões movimentados em operações ligadas a fundos que participaram da estrutura societária do resort Tayayá, anteriormente ligado à família de Toffoli. Não há comprovação de que o ministro tenha recebido pessoalmente esse valor ou cometido crime.
Novos documentos relacionados ao caso Banco Master voltaram a colocar sob atenção as relações entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e o ex-controlador da instituição financeira, Daniel Vorcaro.
As informações envolvem desde um encontro realizado em Londres, em abril de 2024, durante um evento patrocinado pelo Banco Master, até movimentações financeiras de aproximadamente R$ 35 milhões relacionadas a fundos que participaram de operações envolvendo o resort Tayayá, empreendimento que teve uma empresa ligada à família de Toffoli entre seus sócios.
As informações fazem parte de documentos, mensagens e relatórios analisados pela Polícia Federal. Até o momento, porém, não há decisão judicial afirmando que Toffoli tenha recebido pessoalmente os R$ 35 milhões ou cometido crime.
Toffoli esteve em evento patrocinado pelo Banco Master em Londres
Em abril de 2024, Dias Toffoli esteve em Londres para participar do 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado entre os dias 24 e 26 daquele mês e patrocinado pelo Banco Master.
Durante a programação, autoridades brasileiras participaram de uma degustação do uísque escocês Macallan no George Club, localizado em Mayfair, uma das regiões mais exclusivas da capital britânica.
Entre os presentes estavam Toffoli, o ministro Alexandre de Moraes, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, além do próprio Daniel Vorcaro e outras autoridades.
Documentos recuperados pela Polícia Federal indicam que a experiência de degustação, gastronomia e entretenimento no local teve custo registrado de aproximadamente US$ 640 mil, equivalente a mais de R$ 3 milhões na cotação da época.
O evento e as despesas foram vinculados à programação patrocinada pelo Banco Master.
Moraes também participou e teria ajudado na organização de convites
Documentos divulgados posteriormente indicam que Alexandre de Moraes participou ativamente de contatos relacionados ao evento de Londres.
Relatório tornado público aponta, por exemplo, que Moraes teria convidado o ministro Gilmar Mendes para participar da programação, mencionando expressamente que o evento era organizado com participação do Banco Master.
Em uma sessão reservada do STF realizada posteriormente para discutir o caso Master, Moraes também confirmou que esteve no encontro e afirmou que diversas autoridades participaram da confraternização em Londres.
Esses elementos demonstram que a presença de Toffoli e Vorcaro ocorreu em um ambiente compartilhado por diversas autoridades. Eles, isoladamente, não comprovam relação ilícita entre os participantes.
R$ 35 milhões aparecem em operações relacionadas ao Tayayá
Outro ponto considerado mais sensível pela investigação envolve o resort Tayayá, no Paraná.
Uma empresa ligada à família de Dias Toffoli participou anteriormente da sociedade do empreendimento. Posteriormente, fundos de investimento passaram a integrar operações envolvendo essa participação.
Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro mostram que o banqueiro discutiu com seu cunhado e operador financeiro, Fabiano Zettel, pagamentos relacionados ao negócio.
De acordo com documentos bancários e informações analisadas pela Polícia Federal, os repasses vinculados à operação totalizaram aproximadamente R$ 35 milhões.
Em uma primeira etapa teriam sido movimentados cerca de R$ 20 milhões e, posteriormente, outros R$ 15 milhões.
PF investiga caminho do dinheiro
A Polícia Federal passou a analisar a relação entre os pagamentos, fundos de investimento e empresas envolvidas na antiga estrutura societária do Tayayá.
Reportagens baseadas em documentos da investigação apontam que um dos fundos sob análise é o Arleen, que recebeu recursos relacionados a Vorcaro e adquiriu participação em empresa ligada aos irmãos de Toffoli.
A PF levantou a hipótese de que estruturas financeiras intermediárias possam ter sido utilizadas para realizar as operações. Parte desses ativos teria sido posteriormente transferida para uma holding registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.
Essas circunstâncias despertaram suspeitas dos investigadores e motivaram pedidos de aprofundamento das apurações.
R$ 35 milhões não significam pagamento pessoal a Toffoli
Apesar da repercussão do valor, é necessário fazer uma distinção importante.
Os documentos indicam movimentações financeiras relacionadas aos fundos e à operação envolvendo o resort, mas não comprovam, até o momento, que Dias Toffoli tenha recebido pessoalmente R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro.
Também não existe, até agora, condenação ou decisão judicial declarando que o ministro tenha cometido lavagem de dinheiro, corrupção ou qualquer outro crime relacionado às operações.
A suspeita da Polícia Federal está relacionada principalmente à estrutura financeira utilizada e à necessidade de esclarecer quem seriam os beneficiários finais de determinados fundos.
Toffoli nega relação financeira com Vorcaro
Dias Toffoli nega ter recebido recursos de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado, Fabiano Zettel.
O ministro também afirma que não mantinha relação de amizade ou intimidade com o ex-controlador do Banco Master e rejeita a existência de operações financeiras pessoais envolvendo o banqueiro.
O gabinete de Toffoli também negou que o ministro tenha recursos ou investimentos ocultos no exterior.
Relatório da PF provocou saída de Toffoli do caso Master
A Polícia Federal elaborou um relatório de aproximadamente 200 páginas sobre as relações identificadas durante as investigações e encaminhou o material ao presidente do STF, Edson Fachin.
As informações contribuíram para aumentar os questionamentos sobre a permanência de Toffoli na relatoria das investigações relacionadas ao Banco Master.
Posteriormente, Toffoli deixou a condução do caso, que passou para o ministro André Mendonça.
Embora os achados tenham provocado fortes questionamentos, inicialmente eles não resultaram na abertura formal de uma investigação criminal contra Toffoli.
Retirada de sigilo aumenta acesso aos documentos
O assunto voltou ao centro das atenções nesta semana depois que documentos de diversos procedimentos relacionados ao Banco Master tiveram o sigilo retirado.
O presidente do STF, Edson Fachin, defendeu maior transparência nos processos e André Mendonça determinou a liberação de informações de vários procedimentos ligados ao caso.
A medida permite que novas mensagens, relatórios e documentos sejam analisados publicamente e pode revelar mais detalhes sobre as relações mantidas por Daniel Vorcaro com autoridades, empresários e integrantes dos Poderes da República.
As novas informações, entretanto, devem continuar sendo analisadas individualmente, distinguindo fatos comprovados, suspeitas levantadas pela Polícia Federal e acusações ainda dependentes de confirmação.
Fontes: Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal, Folha de S.Paulo, Poder360, UOL, Estadão e documentos relacionados ao caso Banco Master tornados públicos.