Crise explode: Mendonça afasta diretor-geral da PF e diz ter sido monitorado ilegalmente por mais de 30 dias
André Mendonça afastou preventivamente Andrei Rodrigues e Leandro Almada após afirmar que relatórios da inteligência da PF revelam monitoramento ilícito de sua atuação. A Segunda Turma já formou maioria para manter o afastamento de Andrei, mas Gilmar Mendes pediu vista.
A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal alcançou um novo patamar nesta terça-feira (8). O ministro André Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, depois de afirmar que foi alvo de um “monitoramento sistemático” e ilícito realizado dentro da própria estrutura de inteligência da corporação.
A decisão provoca um dos mais graves confrontos institucionais desde o início das revelações envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo Mendonça, foram produzidos ao menos seis documentos de inteligência entre 3 e 31 de agosto de 2026 contendo análises sobre sua atuação, suas decisões e suas relações com outras autoridades.
“Ao menos há mais de 30 dias este relator tem sido monitorado pela Polícia Federal.”
Para Mendonça, a situação possui gravidade excepcional porque envolve o monitoramento de um ministro da Suprema Corte sem base legal adequada.
Mendonça fala em “monitoramento e coleta dirigida”
O ministro sustenta que os documentos não se limitaram à reunião de informações já existentes.
Segundo sua decisão, os relatórios analisaram criticamente atos praticados por ele na condução das investigações, o tempo utilizado para decidir determinados pedidos, sua relação com integrantes do Supremo e até possíveis motivações políticas para suas decisões.
Um dos documentos mencionados pelo ministro utilizava a expressão “monitoramento e coleta dirigida”.
Mendonça interpretou o trecho como demonstração de que a atividade de inteligência ultrapassou os limites de uma análise institucional.
“Se evidencia a efetiva realização de monitoramento e coleta dirigida sobre a pessoa deste Ministro do Supremo Tribunal Federal e sobre a pessoa do Advogado Geral da União.”
O advogado-geral da União, Jorge Messias, também aparece nas análises produzidas pela inteligência da Polícia Federal.
Relatórios chegaram a Alexandre de Moraes
Os documentos estão diretamente relacionados ao confronto que se estabeleceu entre André Mendonça e Alexandre de Moraes.
Parte desse material foi encaminhada a Moraes e posteriormente utilizada pelo ministro para levantar suspeitas sobre a atuação de Mendonça nas investigações relacionadas ao Banco Master e ao INSS.
Moraes apontou possíveis indícios, em tese, de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade, além de questionar a imparcialidade do colega.
Essas acusações representam alegações apresentadas por Moraes e ainda não constituem conclusão judicial de que Mendonça tenha cometido qualquer irregularidade.
Os próprios documentos de inteligência continham ressalvas sobre o grau de confiança de determinadas conclusões e sobre sua utilização como elemento probatório.
Mendonça diz que Moraes sabia da existência dos documentos
Na decisão desta terça-feira, Mendonça também chamou atenção para a cronologia do encaminhamento dos relatórios.
Segundo ele, a própria decisão de Moraes indicaria que o ministro já possuía “notícias da existência” do material antes do recebimento formal.
O envio oficial dos documentos teria ocorrido por meio de ofício assinado por Andrei Rodrigues em 1º de setembro.
Mendonça interpretou a sequência como mais um elemento que precisa ser investigado.
O ministro, entretanto, não afirmou que Moraes tenha determinado a produção dos relatórios ou participado diretamente de sua elaboração.
Diretor-geral e chefe da Inteligência são afastados
Diante do que classificou como situação de “superlativa gravidade”, Mendonça determinou o afastamento preventivo de duas das principais autoridades da Polícia Federal:
- Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal;
- Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência Policial da corporação.
O afastamento possui caráter cautelar e não representa condenação dos dois delegados.
Mendonça justificou a medida afirmando ser necessário garantir que ministros do Supremo, integrantes da advocacia pública e servidores da própria Polícia Federal possam exercer suas atribuições sem aquilo que classificou como constrangimentos ilegais.
Corregedoria terá de descobrir quem mandou produzir os relatórios
A decisão não termina nos afastamentos.
Mendonça determinou que a Corregedoria da Polícia Federal abra procedimentos de natureza penal e administrativo-disciplinar.
A investigação deverá tentar esclarecer quem determinou a elaboração dos documentos, quem participou efetivamente da produção, quando foram preparados, quais informações foram utilizadas e se existem outros relatórios semelhantes.
Essa apuração poderá ser decisiva para determinar se houve efetivamente atividade irregular de inteligência e quem seria responsável por ela.
Novos relatórios desse tipo são suspensos
Mendonça também determinou a suspensão imediata da produção, elaboração e compartilhamento de relatórios de inteligência destinados a analisar atos praticados no exercício das funções constitucionais de magistrados, integrantes da advocacia pública e membros da polícia judiciária.
A proibição alcança inclusive o compartilhamento interno desse tipo de documento.
A decisão representa uma intervenção direta na maneira como determinados produtos de inteligência estavam sendo produzidos dentro da Polícia Federal.
Mensagens de Vorcaro colocaram Andrei no centro da crise
O nome do diretor-geral da PF já havia aparecido em outro capítulo explosivo do caso Banco Master.
Mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro mostram o banqueiro procurando um interlocutor que a Polícia Federal atribui a Alexandre de Moraes para tentar obter ajuda diante do avanço das investigações.
Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da primeira prisão de Vorcaro, o banqueiro escreveu:
“Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei?”
Segundo a investigação, “Paulo” seria uma referência ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, enquanto “Andrei” seria Andrei Rodrigues.
Em outras mensagens, Vorcaro também pediu que Andrei fosse sensibilizado para adiar uma ação da Polícia Federal para a semana seguinte, argumentando que uma operação naquele momento poderia provocar a quebra do banco.
Até agora, porém, não há indicação pública de que Andrei Rodrigues ou Paulo Gonet tenham atendido aos pedidos feitos por Vorcaro.
As mensagens demonstram o que o banqueiro desejava e solicitava ao interlocutor; não comprovam, sozinhas, que as autoridades mencionadas tenham participado de qualquer interferência.
Novo reage e chegou a pedir prisão de Andrei
A decisão de Mendonça também analisou pedido apresentado pelo partido Novo.
A legenda havia solicitado medidas contra o diretor-geral da Polícia Federal e chegou a defender sua prisão diante das informações encontradas no material relacionado ao Banco Master.
Mendonça não acolheu a prisão e optou pelo afastamento preventivo.
A diferença é importante: o diretor-geral não foi preso e o afastamento possui natureza cautelar enquanto os fatos são apurados.
Segunda Turma forma maioria pelo afastamento
Poucas horas depois da decisão, o caso começou a ser analisado pela Segunda Turma do Supremo.
André Mendonça submeteu sua própria medida ao colegiado em sessão virtual extraordinária.
Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam Mendonça, formando maioria para manter o afastamento de Andrei Rodrigues.
O julgamento, entretanto, não foi concluído.
O ministro Gilmar Mendes pediu vista, interrompendo temporariamente a análise.
Assim, apesar da maioria já formada, o procedimento ainda aguarda a conclusão formal do julgamento.
PF reage e AGU prepara recurso
A decisão provocou forte reação dentro da Polícia Federal.
Integrantes da cúpula da corporação demonstraram indignação e classificaram a medida de Mendonça como “política”, segundo relatos publicados pela imprensa.
A Advocacia-Geral da União também prepara recurso contra o afastamento.
Um dos argumentos discutidos é que a nomeação e exoneração do diretor-geral da Polícia Federal são atribuições do presidente da República e que uma decisão individual de ministro do Supremo não poderia interferir dessa maneira no comando da instituição.
Essa discussão deverá agora chegar ao próprio STF.
Crise que começou com o Master agora atinge o comando da PF
A dimensão do episódio mostra como o caso Banco Master ultrapassou há muito tempo os limites de uma investigação financeira.
As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro provocaram questionamentos sobre contatos com autoridades, chegaram ao Supremo, colocaram Alexandre de Moraes e André Mendonça em confronto e agora atingem diretamente o comando da Polícia Federal.
De um lado, Moraes utilizou relatórios de inteligência para questionar a atuação de Mendonça.
Do outro, Mendonça afirma que justamente esses relatórios demonstram que ele próprio estava sendo monitorado ilegalmente.
No meio da disputa estão a Polícia Federal, a PGR, a AGU e o presidente do Supremo, Edson Fachin.
Uma crise institucional sem precedente recente
O episódio abre perguntas que agora precisarão ser respondidas formalmente.
Quem determinou a produção dos relatórios sobre Mendonça? Qual era sua finalidade? Houve autorização legal? Por que o advogado-geral da União também foi analisado? Quem teve acesso ao material antes do envio formal? E até onde a estrutura de inteligência da Polícia Federal pode analisar a atuação de ministros do Supremo?
Ao mesmo tempo, permanecem abertas as perguntas do outro lado da crise: qual era a extensão da relação de Daniel Vorcaro com autoridades mencionadas em suas mensagens e houve alguma tentativa efetivamente atendida de interferência nas investigações?
Nesta terça-feira, Mendonça tomou a medida mais dura até agora: afastou preventivamente o chefe da Polícia Federal e o diretor de Inteligência da corporação.
O caso Banco Master, que começou como uma investigação sobre operações financeiras, transformou-se em uma crise envolvendo algumas das instituições mais poderosas da República — e, pelo ritmo dos acontecimentos, o episódio está longe de chegar ao fim.
Fontes
Decisão do ministro André Mendonça; Supremo Tribunal Federal; Poder360; Reuters; Folha de S.Paulo; CNN Brasil; UOL; Veja e informações públicas relacionadas às investigações do Banco Master.