Estudo revela que mosquito da dengue pode aprender a associar repelente a alimento
Pesquisa internacional mostra que mosquitos Aedes aegypti podem aprender a relacionar o cheiro do repelente DEET a uma refeição de sangue. Cientistas afirmam que o produto continua eficaz e que os testes foram realizados apenas em laboratório.
Uma descoberta surpreendente publicada por cientistas franceses e americanos chamou a atenção da comunidade científica nos últimos dias. Pesquisadores identificaram que o mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão da dengue, zika, chikungunya e febre amarela, é capaz de aprender a associar o cheiro de um dos repelentes mais utilizados do mundo a uma oportunidade de alimentação.
O estudo foi publicado na revista científica Journal of Experimental Biology e analisou o comportamento de fêmeas do mosquito em ambiente controlado de laboratório.
Como foi realizado o experimento?
Os pesquisadores utilizaram o composto DEET, considerado o padrão internacional em repelentes contra mosquitos.
Durante os testes, grupos de mosquitos receberam acesso a sangue enquanto eram expostos ao odor do DEET. Após repetidas experiências, os insetos passaram a associar aquele cheiro à recompensa alimentar, de maneira semelhante ao famoso experimento de condicionamento realizado pelo cientista Ivan Pavlov com cães.
Quando foram novamente expostos apenas ao cheiro do repelente, muitos dos mosquitos treinados demonstraram comportamento de busca por alimento e tentativas de picada.
Segundo os pesquisadores, cerca de 60% das fêmeas previamente condicionadas responderam ao odor do DEET como se estivessem diante de uma fonte de sangue.
Isso significa que repelentes não funcionam mais?
Não.
Esse é justamente o ponto que os próprios cientistas fazem questão de destacar.
O estudo não conclui que os repelentes perderam eficácia nem que os mosquitos da natureza estejam desenvolvendo resistência generalizada ao produto. A pesquisa foi realizada em condições controladas de laboratório e teve como objetivo entender melhor os mecanismos de aprendizado do mosquito.
Os pesquisadores ressaltam que o DEET continua sendo uma das ferramentas mais eficazes disponíveis para proteção individual contra picadas.
O que preocupa os cientistas?
A descoberta levanta uma questão importante para futuras pesquisas.
Segundo os autores, se um mosquito encontrar repetidamente pessoas usando pequenas concentrações de repelente ou produtos cuja proteção já esteja enfraquecida pelo tempo, ele poderá associar aquele odor à presença de alimento. Isso poderia reduzir parte do efeito repelente em determinadas situações.
Por isso, especialistas reforçam a importância de seguir corretamente as orientações dos fabricantes e reaplicar o produto dentro do período recomendado.
O mosquito continua sendo uma ameaça
O Aedes aegypti é atualmente um dos principais vetores de doenças no Brasil. Somente nos últimos anos, o país enfrentou recordes de casos de dengue, tornando o combate ao mosquito uma das maiores preocupações das autoridades de saúde.
Além da eliminação de criadouros, o uso de repelentes continua sendo uma das principais formas de proteção individual, especialmente em regiões com alta circulação do mosquito.
O que os pesquisadores pretendem descobrir agora?
A próxima etapa será entender por quanto tempo os mosquitos conseguem manter essa associação entre o cheiro do repelente e a obtenção de alimento.
Os cientistas também querem saber se esse comportamento ocorre com frequência suficiente na natureza para gerar algum impacto real nas estratégias de combate ao mosquito.
Até lá, a recomendação continua a mesma: eliminar água parada, utilizar repelentes de forma correta e seguir as orientações das autoridades sanitárias.