Tudo começou com um casamento: a história da startup que desafiou um dos mercados mais fechados do Brasil
A Buser nasceu em 2017 após seu fundador perceber que fretar um ônibus para convidados de seu casamento era mais barato do que comprar passagens individuais. A ideia deu origem ao modelo de fretamento colaborativo, enfrentou mais de 200 processos judiciais, conquistou grandes investidores e ajudou a ampliar a concorrência no transporte rodoviário brasileiro.
Grandes empresas costumam nascer da identificação de um problema. No caso da Buser, tudo começou com um casamento e uma simples comparação de preços que acabou revelando uma oportunidade de transformar o transporte rodoviário brasileiro.
Em novembro de 2016, o empresário mineiro Marcelo Abritta organizava seu casamento em Arraial d'Ajuda, na Bahia. O desafio era levar cerca de 30 familiares de Minas Gerais até o litoral baiano. Ao pesquisar os custos da viagem, percebeu algo inesperado: fretar um ônibus executivo inteiro era muito mais barato do que comprar passagens individuais para todos os convidados.
A descoberta levantou uma pergunta simples: por que qualquer grupo de pessoas não poderia compartilhar um ônibus e dividir os custos da viagem?
Uma ideia que saiu do papel
No início de 2017, Marcelo Abritta convidou seu amigo de infância Marcelo Vasconcellos para desenvolver o projeto. Durante meses, os dois pesquisaram empresas de fretamento, simularam rotas e compararam valores em diferentes trajetos.
Os resultados chamaram atenção. Em alguns percursos, o custo da viagem poderia ser até 60% menor do que o valor cobrado pelas empresas tradicionais de ônibus.
Em junho daquele ano nasceu oficialmente a Buser. Inicialmente, a empresa funcionava apenas como uma página no Facebook explicando um conceito ainda pouco conhecido no Brasil: o fretamento colaborativo, em que passageiros interessados no mesmo destino dividem o custo de um ônibus executivo.
Mesmo sem campanhas publicitárias, a proposta rapidamente ganhou milhares de seguidores por meio da divulgação espontânea entre os usuários.
A primeira viagem terminou nos tribunais
A estreia da plataforma estava marcada para julho de 2017, ligando Belo Horizonte a Ipatinga. As vagas foram preenchidas poucas horas após a abertura das reservas, demonstrando que havia interesse pelo novo modelo.
Entretanto, a viagem acabou impedida por uma decisão judicial após questionamentos apresentados por representantes do setor de transporte rodoviário.
A empresa precisou providenciar alternativas para os passageiros e assumiu os prejuízos da operação. O episódio, porém, teve um efeito inesperado: ganhou repercussão nacional e chamou a atenção de investidores interessados no potencial da startup.
Mais de 200 processos judiciais
O crescimento da Buser foi acompanhado por uma intensa disputa jurídica.
Empresas tradicionais, sindicatos e órgãos reguladores passaram a questionar a legalidade do modelo de fretamento colaborativo, alegando concorrência desleal e possíveis irregularidades na operação.
Segundo os fundadores, a empresa acumulou mais de 200 processos judiciais ao longo dos primeiros anos de funcionamento.
A Buser sempre sustentou que atua apenas como plataforma de intermediação entre passageiros e empresas de fretamento devidamente autorizadas, sem operar diretamente linhas regulares de transporte.
Uma decisão que fortaleceu o modelo
Ao longo dos anos, diferentes decisões judiciais passaram a reconhecer que plataformas digitais de intermediação de fretamento não podem ser automaticamente classificadas como transporte clandestino.
Esses entendimentos fortaleceram juridicamente o modelo de negócio e permitiram que a empresa ampliasse sua atuação em diversas regiões do país, embora discussões regulatórias ainda existam.
Investimentos impulsionaram o crescimento
O interesse dos investidores cresceu à medida que a empresa demonstrava capacidade de expansão.
Após sua rodada inicial de investimentos em 2017, a startup recebeu aportes de fundos especializados em tecnologia e inovação.
Em 2021, a empresa anunciou uma captação de aproximadamente R$ 700 milhões em uma rodada liderada pelo fundo LGT Lightrock, com participação de investidores como SoftBank Latin America Fund, Monashees, Valor Capital Group, Globo Ventures, Canary e Iporanga Ventures.
Os recursos foram destinados à ampliação das operações, desenvolvimento tecnológico e expansão dos serviços oferecidos pela plataforma.
Como a Buser funciona
Diferentemente das empresas tradicionais de ônibus, a Buser não possui frota própria.
A plataforma conecta passageiros interessados em realizar o mesmo trajeto e empresas de fretamento autorizadas, que disponibilizam os veículos para a viagem.
Ao dividir os custos entre diversos passageiros, o valor final costuma ser inferior ao das passagens comercializadas pelas linhas convencionais.
Um mercado que passou a ter mais concorrência
Durante décadas, o transporte rodoviário interestadual e intermunicipal brasileiro foi marcado pela presença de poucas empresas operando diversas rotas.
Com a chegada da Buser, pequenas empresas de fretamento passaram a encontrar uma nova forma de oferecer seus serviços, aumentando a concorrência em diferentes regiões do país.
O modelo também ampliou as opções para consumidores que buscavam viagens de menor custo e maior flexibilidade.
Uma ideia simples que ganhou o Brasil
O que começou como uma tentativa de economizar no transporte de convidados para um casamento acabou se transformando em uma das startups mais conhecidas do setor de mobilidade no Brasil.
A trajetória da Buser mostra como uma necessidade cotidiana pode dar origem a um modelo de negócios capaz de desafiar práticas consolidadas, estimular a concorrência e impulsionar mudanças em um mercado que permaneceu praticamente inalterado durante muitos anos.