Às vezes, a vida se move no ritmo do pedal da minha máquina de costura. Enquanto a agulha sobe e desce, fixando a linha no tecido de uma camisa, minha mente costuma viajar. E hoje, ela viajou para longe. Foi parar em um altar, anos atrás, em um culto de jovens.
Se eu puder abrir meu coração com vocês aqui, como quem compartilha um café quentinho, preciso confessar um segredo: eu tinha um sonho. Na verdade, acho que ele ainda está aqui dentro, guardado como uma chama silenciosa, mas viva. Eu almejava, do fundo da alma, ser uma pregoeira do Evangelho. Eu passava horas e horas mergulhada na Bíblia, devorando livros, artigos, alimentando aquele desejo de falar do amor de Deus.
Mas a vida acontece. E, entre escolhas erradas, a timidez que muitas vezes me travou, os traumas e o medo que gritam alto, eu acabei deixando o tempo passar. Deixei o sonho de lado, ou pelo menos achei que tinha deixado.
Hoje, no barulho ritmado da costura, me peguei lembrando do dia em que venci o medo e preguei naquele culto. Lembrei das lágrimas e das orações desesperadas que fiz dias antes, implorando por coragem. Mas eu fui. A mensagem era sobre aquela passagem marcante de Lucas 7:47:
"Aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama."
Vocês conhecem esse contexto? Jesus estava na casa de um fariseu chamado Simão, que o olhava com julgamento. De repente, uma mulher pecadora entra, chora aos pés de Jesus, os molha com suas lágrimas, os enxuga com os próprios cabelos e os unge com perfume. Simão a criticou em seu coração, mas Jesus deu a maior lição de graça da história: aquela mulher amava muito porque entendia a imensidão do perdão que estava recebendo. Quem se acha "autossuficiente" ou "perfeito demais" não entende a profundidade do perdão e, por isso, ama pouco.
Naquele dia, mesmo trêmula, eu ministrei sobre isso. E o que aconteceu depois? Minha alma ficou leve. Senti a presença de Deus de um jeito tão real que parecia flutuar, e sei que quem ouviu também sentiu.
Ao lembrar disso hoje, confesso que veio uma pontinha de saudade misturada com frustração. Aquela sensação incômoda de "e se?", de parecer que deixei algo sagrado para trás.
O escritor Max Lucado, no seu livro Um Amor que Vale a Pena, traz uma perspectiva linda sobre como Deus nos enxerga nessas nossas idas e vindas. Ele nos lembra de que o amor de Deus não depende do nosso desempenho ou de termos uma trajetória perfeita. Lucado escreve que Deus nos ama assim como somos, mas se recusa a nos deixar do jeito que estamos. Ele quer que sejamos como Jesus.
Em outro trecho poderoso desse livro, Lucado nos lembra que:
"Deus nunca desiste de você. Não importa o que você tenha feito, o amor Dele permanece o mesmo."
Pensando bem, se o amor Dele é esse amor que vale a pena, e se Ele não desiste de nós... por que eu deveria desistir daquilo que Ele mesmo plantou em mim?
Olho para o tecido na minha mesa e lembro que, na costura, quando um ponto sai torto, a gente desfaz e recomeça. O pano não é perdido. O tempo de Deus não corre no mesmo relógio que o nosso. Se Ele quiser — e eu creio que Ele quer —, ainda há tempo. A chama não apagou; ela só estava esperando o sopro certo do Espírito para voltar a arder.
Talvez você também tenha um "ponto torto" na sua história ou um sonho que guardou na gaveta por medo. Que tal a gente lembrar juntos hoje que a graça que nos perdoa muito é a mesma que nos capacita a amar e a recomeçar?
Ainda há tempo. Sempre há.
E você? Qual foi a última vez que sentiu aquela presença que deixa a alma leve, mesmo no meio dos seus medos? Me conta aqui nos comentários, vamos conversar!