Senta aqui, pega um café (ou um chá, se você já estiver tentando acalmar os nervos) e vamos ter uma conversa muito séria. Mas ó, já vou logo avisando: eu estou no topo da lista das pessoas que vão levar esse puxão de orelha hoje. Não estou falando do topo do púlpito, não; estou falando da primeira fileira do banco, aquela que o cisco cai direto no olho.
Estava eu aqui, toda atenta, ouvindo uma pregação sobre o profeta Daniel. Sabe aquela parte do capítulo 10, onde ele resolve fazer um propósito de oração e jejum por três semanas? Pois bem. O homem começou a orar e, no primeiro dia — repito, no primeiro minuto —, Deus já tinha assinado o decreto com a resposta. Só que no meio do caminho, entre o céu e a terra, um tal de "principado do reino da Pérsia" resolveu fazer um bloqueio de carga. Uma burocracia espiritual que durou 21 dias, até que o arcanjo Miguel teve que descer para resolver a parada.
E qual foi a minha grande conclusão ao final do sermão? Que se o anjo dependesse da minha persistência para conseguir passar, ele estaria preso lá em cima até hoje.
Daniel 1 × Nós (no primeiro sinal de cansaço)
A Bíblia diz textualmente em Daniel 10:12:
"Não tenha medo, Daniel. Desde o primeiro dia em que você decidiu buscar entendimento e humilhar-se diante do seu Deus, as suas palavras foram ouvidas, e eu vim em resposta a elas."
Olha que coisa linda! Deus respondeu na hora. Mas a resposta demorou a chegar na terra. E o que Daniel fez? Desistiu no quinto dia porque "estava muito corrido"? Entrou no WhatsApp para reclamar que o jejum dava dor de cabeça? Não. Ele continuou firme.
Agora, vamos olhar para o nosso espelho (e aqui a carapuça serve em mim com folga). Quantas vezes a gente começa um propósito de oração todo trabalhado no fervor?
Dia 1: "Senhor, eu vou clamar por essa situação até o céu abrir!" (Oração de 40 minutos, joelho no chão).
Dia 2: "Pai, continua abençoando..." (Oração de 15 minutos, sentada na cama).
Dia 3: "Deus, Tu sabe, né? O cansaço me venceu hoje. Amém." (Dorme babando no travesseiro antes de terminar o 'Pai Nosso').
No quarto dia, a gente desiste porque "Deus não está ouvindo". Irmãos, o problema não é o silêncio de Deus, é a nossa falta de fôlego! Nós desenvolvemos uma fé de micro-ondas: queremos colocar o pedido, apertar trinta segundos e tirar a bênção quentinha. Se demorar 21 dias, a gente acha que o aparelho quebrou.
O que os clássicos dizem sobre isso?
Não sou só eu que estou expondo minhas fraquezas aqui. Grandes homens do passado já olhavam para a igreja e viam essa nossa mania de "orar e correr".
O famoso teólogo E.M. Bounds, que escreveu clássicos profundos sobre a oração, tem uma frase que se encaixa perfeitamente nesse nosso "sedentarismo espiritual":
"Orações curtas, superficiais e apressadas são a ruína da espiritualidade contemporânea... A oração que prevalece precisa ser contínua, paciente e cheia de fé persistente."
Basicamente, Bounds está nos dizendo: "Irmão, pare de fazer oração de Twitter (X) para um Deus que quer ter uma conversa de livro inteiro com você".
E se olharmos para C.S. Lewis, em Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, ele ironiza justamente como o inimigo adora quando a nossa oração perde o foco e o fôlego, tornando-se apenas uma repetição mecânica ou algo que abandonamos no primeiro bocejo. O cansaço é real, claro que é! Mas muitas vezes usamos o cansaço legítimo como desculpa para a nossa falta de prioridade espiritual.
A Crítica de Amor: Onde foi parar o "Até que Ele Venha"?
A verdade nua e crua é que a igreja atual sofre de um déficit crônico de persistência. A gente quer vitória de Daniel na cova dos leões, mas não quer a rotina de Daniel de orar três vezes ao dia com a janela aberta, faça chuva ou faça sol.
Se o culto passa cinco minutos do horário, a gente olha para o relógio como se estivesse perdendo o voo para a Disney. Se o pastor pede para interceder por dez minutos em silêncio, metade da igreja começa a pescar e a outra metade vai conferir as notificações do celular. Estamos nos tornando "crentes fast-food". Se a resposta do Senhor exige que a gente gaste o joelho, a gente prefere mudar o pedido.
Daniel nos ensina que a oração não é para mudar a velocidade de Deus, é para alinhar a nossa resistência ao tempo Dele. Enquanto ele orava, o mundo espiritual se movia. Enquanto nós desistimos, o processo para pela metade.
Menos Desculpas, Mais Joelho
Então, fica aqui o meu compromisso público (e o convite para você): vamos parar de deixar o cansaço vencer o nosso propósito. Se a resposta está demorando, pode ser que o "principado" esteja tentando barrar, e a nossa persistência é o que mantém o canal aberto.
Da próxima vez que o sono vier no meio do clamor, levanta, lava o rosto, toma um gole de água e diz: "Se Daniel aguentou 21 dias comendo legumes e chorando pelo povo, eu aguento mais dez minutos sem olhar o feed do Instagram".
Deus ouve no primeiro segundo. Mas a vitória é de quem fica de joelhos até o anjo chegar.
E você? Tem sido Daniel ou tem dormido no terceiro dia do propósito? Me conta aqui nos comentários (com toda a honestidade, porque Deus está vendo e eu também quero consolo de que não estou sozinha nessa!).