Você já reparou como o hábito tem um poder silencioso de anestesiar nossos olhos?
A gente se acostuma com o caminho do trabalho. Costuma-se com a cor da pintura na parede da sala. E, se não tomarmos cuidado, nos acostumamos até com Deus.
É sobre esse perigo sutil — e sobre o poder de um coração escancarado — que duas casas na Bíblia têm muito a nos ensinar hoje.
O Dia em que a Festa Virou Funeral
A história está lá em II Samuel 6. O rei Davi decide que é hora de trazer a Arca da Aliança de volta para o centro da nação. Para o povo de Israel, a Arca não era apenas um baú de madeira e ouro; era o símbolo máximo da presença visível de Deus na Terra.
Davi prepara uma festa grandiosa. Músicas, danças, celebração. Mas, no meio do caminho, o que era para ser um dia de alegria vira um funeral. O transporte é feito de qualquer jeito — em um carro de bois, ignorando as instruções divinas. Os animais tropeçam. Um homem chamado Uzá, numa tentativa impensada de "dar uma ajuda" para Deus, toca na Arca. E morre ali mesmo.
Assustado com a intensidade da santidade divina, Davi desiste da viagem. Ele recua. E é nesse momento de crise que a história se divide entre duas salas de estar bem diferentes: a casa de Abinadabe e a casa de Obede-Edom.
Abinadabe: O Perigo da Familiaridade
A Arca passou longos vinte anos na casa de Abinadabe antes de Davi tentar buscá-la. Duas décadas.
Tempo suficiente para as crianças crescerem brincando ao redor dela. Tempo suficiente para ela acumular um pouco de poeira e virar apenas mais um móvel pesado na casa.
Como o querido autor Max Lucado costuma nos lembrar em suas reflexões sobre a nossa tendência de empacotar a fé: “Nós limpamos o pó do altar, polimos os bancos, mas esquecemos dAquele que habita no lugar secreto.”
Na casa de Abinadabe, o sagrado perdeu o brilho do mistério. Ficou comum. Seus filhos, Uzá e Aiô, aprenderam a guiar o carro de bois que levava a Arca, mas esqueceram de tremer diante do Deus da Arca. Eles tinham intimidade, mas não tinham reverência.
O teólogo A.W. Tozer, em sua clássica obra A Procura de Deus, alertava exatamente sobre esse comportamento: “O conceito de reverência praticamente desapareceu... Nós tratamos a Deus com uma informalidade que beira o desrespeito.”
Vinte anos convivendo com a glória de Deus sob o mesmo teto. E sabe o que é mais impressionante? A Bíblia não registra uma única linha dizendo que a casa de Abinadabe foi abençoada nesse período. Eles tinham a Presença na sala, mas o coração estava distante.
Obede-Edom: O Temor que Abre as Janelas do Céu
Com medo do que aconteceu com Uzá, Davi decide deixar a Arca no primeiro endereço que avista pelo caminho: a casa de Obede-Edom, um homem simples.
Imagine a cena. Um objeto que acabou de tirar a vida de um homem é deixado na sua sala de estar. Humanamente, o medo mandaria trancar as portas. Mas Obede-Edom a recebe.
Ele não a recebe com a arrogância de quem acha que pode controlar a Deus. Ele a recebe com o temor de quem sabe que está diante do Criador do Universo. Ele entendeu perfeitamente o que C.S. Lewis ilustrou ao falar sobre o Leão Aslan nas Crônicas de Nárnia: “Ele não é um leão domesticado. Mas ele é bom.”
A Arca ficou naquela casa por apenas três meses. Noventa dias. Mas foram noventa dias de adoração, respeito e absoluto zelo pela santidade de Deus.
O resultado? O texto bíblico diz que o Senhor abençoou a Obede-Edom, sua família e tudo o que ele possuía. A bênção foi tão transbordante e evidente que os vizinhos começaram a comentar, os boatos correram e a notícia chegou aos ouvidos do rei. Em três meses, Obede-Edom colheu o que Abinadabe não viu em vinte anos.
"Deus não abençoa o tempo de tela ou os anos de banco de igreja que temos com Ele; Ele abençoa a postura do nosso coração diante dEle."
Uma Pergunta para a Nossa Cadeira de Balanço
Olhando para essas duas casas, a pergunta que fica ecoando no nosso peito é muito simples: Como nós estamos acomodando a presença de Deus na nossa própria rotina?
Será que, sem querer, nos tornamos como Abinadabe? Nossa Bíblia continua aberta na mesma página de sempre na mesa de centro. Nossas orações viraram frases automáticas antes de dormir. Deus virou um hábito de domingo de manhã. Nós não O tememos mais; nós apenas nos acostumamos com Ele.
Ou seremos como Obede-Edom? Que mesmo sabendo que Deus é um fogo consumidor, abre as portas, limpa a casa da alma e vive cada dia consciente de que a presença de Jesus é um privilégio de tirar o fôlego.
A bênção não está no tempo de estrada que você tem de fé. A bênção está na reverência com que você dobra os joelhos hoje.
Que a nossa casa nunca seja o lugar onde Deus vira rotina. Que ela seja sempre o lugar onde Ele derrama o Seu milagre.