Caso Moraes chega ao Fantástico enquanto ministros exigem acesso à íntegra do celular de Vorcaro
Zanin, Gilmar e Moraes querem acesso integral aos dados do celular de Vorcaro antes da sessão de terça-feira. A PF informou que pode fornecer cópias preservando sigilo e integridade.
O conteúdo do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro tornou-se uma das peças centrais da crise que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF) às vésperas da sessão extraordinária marcada para terça-feira (15).
Ministros da Corte passaram a cobrar acesso à íntegra dos dados extraídos pela Polícia Federal do aparelho apreendido durante as investigações do Banco Master.
Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes estão entre os ministros que solicitaram acesso ao material completo.
A pressão aumentou depois que a própria Polícia Federal informou ao presidente do STF, Edson Fachin, que possui condições técnicas para fornecer cópias dos dados aos ministros, preservando a cadeia de custódia e a integridade das informações.
Zanin cobra acesso aos dados brutos
Cristiano Zanin defendeu que os integrantes do Supremo tenham acesso ao material que serviu de base para a elaboração dos relatórios policiais.
O ministro argumenta que não existe hierarquia entre os integrantes da Corte e que todos devem possuir condições equivalentes para analisar as provas antes de participar de uma decisão do plenário.
A discussão ganhou ainda mais importância porque a sessão de terça-feira deverá analisar justamente questões relacionadas ao relatório da Polícia Federal que identificou mensagens atribuídas a Vorcaro destinadas ao ministro Alexandre de Moraes.
Gilmar também quer conteúdo completo
O decano do STF, Gilmar Mendes, reforçou a posição de Zanin e pediu a Fachin que assegure aos ministros acesso integral à mídia extraída do aparelho.
Para Gilmar, os integrantes do plenário precisam formar suas próprias convicções a partir do conjunto das informações disponíveis, e não apenas de relatórios ou recortes produzidos a partir desse material.
O ministro também defendeu que, caso os arquivos não fossem fornecidos pelo gabinete responsável pelo caso, a própria Polícia Federal deveria ser acionada para disponibilizá-los.
PF diz que pode entregar cópias
A resposta da Polícia Federal adicionou um elemento importante à disputa.
A corporação informou a Fachin que possui condições técnicas para fornecer cópias individualizadas do conteúdo extraído do celular de Vorcaro.
Segundo a PF, o procedimento pode preservar a cadeia de custódia, identificar individualmente os lacres e certificar a integridade do material.
Isso significa que, tecnicamente, existe possibilidade de os ministros analisarem o conteúdo sem que o aparelho original ou a mídia mantida sob custódia policial sejam alterados.
Mendonça alerta para investigações em andamento
André Mendonça apresenta uma preocupação diferente.
O ministro afirma que a divulgação indiscriminada do conteúdo bruto pode comprometer investigações ainda em andamento e atingir informações protegidas por sigilo.
Mendonça também informou que a mídia existente em seu gabinete corresponde a uma cópia de segurança que permanece lacrada e inacessível, destinada a eventual necessidade em caso de perda ou extravio do material original mantido pela Polícia Federal.
A questão, portanto, não envolve apenas transparência pública. Existe uma diferença entre divulgar os dados para toda a sociedade e permitir que os próprios ministros do STF tenham acesso ao material sob sigilo para realizar o julgamento.
Por que todos querem ver o celular de Vorcaro?
A resposta está diretamente ligada ao julgamento de Alexandre de Moraes.
A Polícia Federal produziu um relatório a partir do material apreendido que identificou mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro enviadas a Moraes.
A Procuradoria-Geral da República questiona juridicamente a forma como esse relatório foi produzido e pediu o reconhecimento de sua nulidade.
O plenário terá, portanto, de analisar questões que podem definir tanto a validade desse material quanto a possibilidade de aprofundamento das investigações envolvendo Moraes.
É justamente por isso que alguns ministros sustentam que não podem votar baseados apenas em trechos ou sínteses: querem analisar o material que deu origem ao relatório.
Celular deixou de ser detalhe e virou centro da crise
O debate ganhou uma dimensão que ultrapassa as mensagens atribuídas a Moraes.
O aparelho de Vorcaro contém grande quantidade de informações relacionadas a empresários, políticos, autoridades, familiares e outras pessoas que mantiveram contato com o ex-controlador do Banco Master.
Parte desse conteúdo pode não possuir qualquer relevância criminal, enquanto outra parte está relacionada a investigações ainda em andamento.
Isso explica a preocupação de Mendonça com a exposição indiscriminada dos arquivos, mas também fortalece o argumento dos ministros que defendem acesso interno e sigiloso ao conteúdo necessário para o julgamento.
Fantástico levou crise do Master ao horário nobre
A crise também ganhou enorme exposição fora do meio político e jurídico.
O Fantástico, da TV Globo, levou ao horário nobre os desdobramentos do caso Banco Master e a disputa envolvendo as mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes.
A entrada do assunto em um dos programas de maior audiência da televisão brasileira ampliou a exposição pública de uma crise que até poucos dias atrás estava concentrada principalmente nos bastidores do Judiciário e na cobertura política.
STF chega à terça-feira sob enorme pressão
A discussão sobre o celular expõe um problema maior para o Supremo: como julgar uma controvérsia sobre provas se parte dos ministros afirma não ter tido acesso ao material completo que originou essas provas?
Zanin e Gilmar sustentam que todos devem possuir acesso igualitário. Moraes também solicitou a íntegra. A PGR igualmente defendeu que os ministros conheçam previamente todo o material relevante.
Mendonça, por sua vez, alerta para os riscos de uma abertura indiscriminada de informações protegidas e de investigações ainda não concluídas.
Com a Polícia Federal afirmando que tecnicamente pode fornecer cópias preservando a integridade e o sigilo, a decisão sobre como esse acesso será realizado passa a ocupar o centro das discussões.
Às vésperas da sessão de terça-feira, o celular de Daniel Vorcaro deixou de ser apenas uma fonte de provas da investigação do Banco Master e se transformou em uma das principais peças da disputa interna que hoje divide o Supremo Tribunal Federal.
Fontes: Agência Brasil, Polícia Federal, Folha de S.Paulo, Fantástico/TV Globo, UOL e documentos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal.