Cuba mergulha em crise energética: apagões chegam a atingir até 70% da ilha e população enfrenta dias sem eletricidade
Cuba enfrenta uma crise energética histórica, com apagões que chegam a atingir até 70% da ilha simultaneamente e regiões passando mais de dois dias sem eletricidade.
Acender uma lâmpada, conservar alimentos na geladeira, carregar o celular ou ligar um ventilador se transformaram em desafios diários para milhões de cubanos. Em meio a uma das mais graves crises energéticas de sua história recente, Cuba enfrenta apagões prolongados, sucessivos colapsos da rede elétrica e um déficit de geração que, em determinados momentos, deixa grande parte da ilha simultaneamente sem eletricidade.
Quando falta energia durante algumas horas, praticamente toda a rotina de uma família muda.
Agora imagine enfrentar essa situação repetidamente — algumas vezes durante 20 horas ou até dias consecutivos.
Essa é a realidade enfrentada atualmente por milhões de moradores de Cuba.
A crise energética que se intensificou em 2024 chegou a níveis críticos em 2026, combinando usinas antigas, sucessivas avarias, falta de investimentos, escassez de combustível e fortes restrições externas ao fornecimento de petróleo.
O resultado é um sistema elétrico extremamente vulnerável e uma população que já não sabe exatamente quando terá eletricidade disponível.
Até 70% de Cuba sem eletricidade ao mesmo tempo
Os números ajudam a demonstrar a dimensão da crise.
Em 23 de agosto, cálculos realizados a partir dos dados da estatal Unión Eléctrica (UNE) indicavam que os apagões poderiam atingir simultaneamente até 70% do território cubano durante o horário de maior demanda.
Isso não significa que exatamente 70% de todas as residências ficaram continuamente apagadas durante todo o dia, mas que o déficit de geração era suficientemente elevado para provocar cortes simultâneos dessa magnitude no horário de pico.
Na capital, Havana, os cortes chegaram a superar 20 horas em determinadas regiões, com moradores recebendo apenas pequenos períodos de fornecimento.
Fora da capital, a situação pode ser ainda pior.
Há registros de províncias enfrentando mais de dois dias consecutivos sem fornecimento de eletricidade.
2026 já teve sete apagões nacionais
Além dos cortes programados provocados pela falta de capacidade de geração, Cuba enfrenta outro problema: o próprio Sistema Electroenergético Nacional (SEN) vem entrando em colapso.
No início de agosto, praticamente toda a ilha ficou novamente às escuras depois de uma desconexão total do sistema.
Quando as autoridades ainda trabalhavam para restabelecer o fornecimento, ocorreu uma segunda queda nacional em menos de 24 horas.
Segundo a agência EFE, aquela foi a sétima interrupção nacional registrada somente em 2026.
Considerando o período dos últimos dois anos, Cuba já acumulava 11 apagões gerais no início de agosto.
Milhões acordaram sem energia
Em uma das quedas nacionais ocorridas no início de agosto, a imensa maioria dos mais de 9 milhões de habitantes de Cuba amanheceu sem eletricidade.
As autoridades começaram então um complicado processo para reconstruir a rede.
Pequenas áreas energizadas são inicialmente criadas para atender instalações essenciais e ajudar a religar gradualmente as grandes usinas.
Hospitais, sistemas de abastecimento de água e outras estruturas consideradas estratégicas recebem prioridade.
Depois, essas áreas precisam ser interligadas até que seja possível reconstruir o sistema nacional.
O problema é que, mesmo quando a rede consegue ser novamente conectada, Cuba continua sem capacidade suficiente para atender toda a demanda.
Outro apagão atingiu 3,4 milhões de pessoas
E os problemas não terminaram com os apagões nacionais do início do mês.
Em 27 de agosto, uma oscilação nas linhas de transmissão provocou uma nova desconexão parcial no leste de Cuba.
O problema atingiu a região entre Holguín e Guantánamo, onde vivem aproximadamente 3,4 milhões de pessoas.
Várias unidades termoelétricas saíram de operação durante o episódio.
Naquele mesmo dia, a dimensão do déficit energético era impressionante.
A UNE estimava uma disponibilidade de aproximadamente 1.170 megawatts.
A demanda máxima prevista era de aproximadamente 3.200 megawatts.
Ou seja, no horário de pico, o sistema possuía pouco mais de um terço da capacidade necessária para atender integralmente a demanda estimada.
Metade das unidades termoelétricas estava parada
Um dos maiores problemas está nas próprias usinas cubanas.
O país possui 16 unidades de geração termoelétrica responsáveis por parcela importante da eletricidade produzida.
Em 27 de agosto, oito delas estavam fora de operação devido a avarias ou manutenção.
Grande parte da infraestrutura termoelétrica cubana é antiga.
Segundo levantamento da EFE, muitas das principais centrais foram construídas ainda nas décadas de 1960 e 1970.
Depois de décadas de operação e períodos prolongados de baixo investimento e manutenção insuficiente, falhas passaram a acontecer com frequência.
Por que Cuba está ficando sem energia?
Não existe apenas uma explicação para a crise.
Ela é resultado de uma combinação de problemas internos e externos.
Entre os fatores internos estão:
- envelhecimento das termoelétricas;
- anos de investimentos insuficientes no sistema;
- manutenção atrasada;
- falhas frequentes nas unidades geradoras;
- baixa capacidade de geração;
- dificuldades financeiras do Estado cubano;
- e dependência de combustíveis fósseis.
Ao mesmo tempo, existe um fator externo que ganhou enorme importância em 2026: a dificuldade de Cuba para importar petróleo e derivados.
Governo culpa pressão dos Estados Unidos
O governo de Miguel Díaz-Canel atribui parcela significativa do agravamento da crise às sanções e à pressão econômica exercida pelos Estados Unidos.
Cuba não produz internamente todo o combustível de que necessita.
Estimativas citadas pela EFE apontam que a ilha necessita de pouco mais de 100 mil barris de petróleo diariamente para suprir suas necessidades energéticas.
A produção nacional gira em torno de 40 mil barris por dia.
O restante precisa vir do exterior.
Com restrições cada vez maiores ao fornecimento internacional, a quantidade disponível diminuiu drasticamente.
Um exemplo ajuda a compreender o tamanho do problema.
Um petroleiro russo que chegou a Cuba no final de março transportando aproximadamente 730 mil barris conseguiu suprir apenas cerca de duas semanas das necessidades energéticas da ilha em abril.
Mas as sanções não explicam tudo
A pressão americana possui impacto concreto sobre a capacidade cubana de importar combustível, mas atribuir toda a crise exclusivamente às sanções também deixaria de fora uma parte importante da história.
O sistema elétrico cubano já apresentava problemas estruturais graves.
A crise energética se intensificou a partir de meados de 2024, quando sucessivas falhas nas termoelétricas e dificuldades de abastecimento começaram a provocar cortes cada vez maiores.
O próprio governo cubano já classificou a situação do sistema como “crítica” e “extremamente tensa”.
Portanto, o quadro atual combina duas realidades: uma infraestrutura envelhecida e com baixa capacidade de geração dentro da ilha e uma forte restrição externa à obtenção do combustível necessário para mantê-la funcionando.
Sem eletricidade, falta até água
Um apagão dessa magnitude não significa simplesmente ficar sem iluminação.
Quando a eletricidade desaparece, outros serviços começam a parar.
Bombas utilizadas para levar água até residências deixam de funcionar.
Alimentos armazenados em geladeiras começam a estragar.
Comércios reduzem ou interrompem atividades.
Celulares ficam sem carga.
Serviços de comunicação são prejudicados.
Em um país de clima quente, ventiladores e aparelhos de refrigeração deixam de funcionar justamente durante períodos de temperaturas elevadas.
A crise energética já está contribuindo inclusive para problemas no abastecimento de água de Havana, situação reconhecida pelo próprio governo cubano.
Hospitais precisam ser tratados como ilhas de energia
A situação se torna especialmente delicada quando envolve hospitais.
Durante a reconstrução do sistema após um apagão nacional, instalações consideradas essenciais recebem prioridade.
Em agosto, durante uma das tentativas de restabelecimento, a UNE informou que dezenas de circuitos haviam sido religados em Havana, permitindo restabelecer o fornecimento para 19 hospitais, além de instalações ligadas ao abastecimento de água.
Hospitais podem possuir sistemas de geração emergencial, mas geradores também precisam de combustível.
Uma crise simultaneamente elétrica e petrolífera aumenta, portanto, a vulnerabilidade dos serviços essenciais.
Escolas também sentem os efeitos
A crise ocorre justamente quando Cuba se prepara para iniciar um novo ano escolar.
O próprio Ministério da Educação reconheceu que o período começa em meio a “dificuldades tremendas”, envolvendo falta de professores, uniformes e necessidade de reorganização das atividades.
O fornecimento irregular de eletricidade adiciona mais uma dificuldade ao funcionamento das escolas.
Economia praticamente paralisada
Talvez um dos efeitos mais graves esteja acontecendo silenciosamente.
Uma economia moderna simplesmente não consegue funcionar normalmente sem fornecimento constante de energia.
Fábricas precisam de eletricidade.
Restaurantes precisam conservar alimentos.
Lojas precisam manter sistemas de pagamento e iluminação.
Hotéis precisam atender turistas.
Empresas precisam de computadores e internet.
Sistemas de água, telecomunicações e transporte também dependem direta ou indiretamente da rede.
Segundo estimativas citadas pela EFE, a economia estatal cubana pode sofrer contração de pelo menos 6,5% em 2026, depois de já acumular queda superior a 15% nos cinco anos anteriores.
Energia não é apenas conforto
A crise cubana demonstra algo que muitas vezes passa despercebido justamente porque a eletricidade normalmente está disponível.
Energia é uma das estruturas que sustentam praticamente todas as outras estruturas de um país.
Quando a rede elétrica funciona, ninguém pensa nela.
Quando deixa de funcionar durante algumas horas, a rotina muda.
Quando deixa de funcionar repetidamente durante 20 horas, dois dias ou mais, o problema deixa de ser apenas energético.
Ele passa a ser econômico, sanitário, social e humanitário.
Cuba tenta manter as luzes acesas
O governo cubano busca ampliar fontes renováveis, principalmente energia solar, e recuperar parte das antigas termoelétricas.
Mas a dimensão do déficit atual mostra que qualquer recuperação estrutural exigirá investimentos elevados, combustível, manutenção e tempo.
Enquanto isso, milhões de cubanos organizam suas rotinas de acordo com as poucas horas em que possuem eletricidade.
Carregar o celular, bombear água, cozinhar ou conservar alimentos precisam ser feitos quando a energia aparece.
E a sequência de acontecimentos de agosto mostra que o problema permanece longe de uma solução definitiva.
Em Cuba, atualmente, o apagão já não é apenas um acontecimento extraordinário. Para milhões de pessoas, passou a fazer parte da rotina.
Fontes
Agência EFE; Unión Eléctrica de Cuba (UNE); Ministério de Energia e Minas de Cuba; Euronews; dados e declarações oficiais repercutidos pela imprensa internacional.