BaseNews Jornalismo com contexto dentro da Mistago
Número ligado a Moraes já estava no radar da CPMI do INSS meses antes de reaparecer no caso Master

Número ligado a Moraes já estava no radar da CPMI do INSS meses antes de reaparecer no caso Master

O telefone atribuído a Alexandre de Moraes nas novas revelações sobre Daniel Vorcaro é o mesmo que a CPMI do INSS rastreou em março e descobriu estar vinculado ao STF. A comissão pediu a identificação dos usuários da linha, mas terminou dias depois sem relatório final aprovado.

WhatsApp

Um número de telefone que voltou ao centro das revelações envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes já havia chamado a atenção do Congresso meses antes. Em março de 2026, a CPMI do INSS encontrou na agenda do ex-controlador do Banco Master um contato salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”. A comissão rastreou a linha e descobriu que ela estava vinculada ao Supremo Tribunal Federal. Agora, novos elementos voltaram a associar o mesmo número ao ministro.

A sequência dos acontecimentos ajuda a reconstruir uma história que começou ainda durante os trabalhos da CPMI do INSS e ganhou novo significado depois da divulgação do relatório da Polícia Federal sobre o celular de Daniel Vorcaro.

O ponto central permanece sendo esclarecido: quem exatamente utilizava aquela linha em cada período e qual era a natureza das comunicações mantidas com o banqueiro?

“Alexandre de Moraes Brasília”

A história começou publicamente em 9 de março.

Durante reunião da CPMI do INSS, parlamentares discutiam informações obtidas após a quebra de sigilo de Daniel Vorcaro.

Foi quando apareceu um contato que imediatamente chamou atenção.

“Alexandre de Moraes Brasília”

Era assim que um determinado número estava identificado entre os dados da agenda de Vorcaro.

O próprio registro oficial dos debates da comissão mostra que os parlamentares trataram do assunto.

Naquele momento, entretanto, havia um problema evidente: qualquer pessoa pode salvar um número no celular utilizando o nome que desejar.

O fato de Vorcaro ter identificado um contato como “Alexandre de Moraes Brasília” não era suficiente, sozinho, para provar quem utilizava aquela linha.

CPMI decidiu descobrir de quem era o número

Os parlamentares então decidiram avançar.

A comissão buscou informações cadastrais por meio do Sistema de Investigação de Registros Telefônicos e Telemáticos, o Sittel.

Em 19 de março, o presidente da CPMI, senador Carlos Viana, anunciou o resultado.

O número estava vinculado ao Supremo Tribunal Federal.

Viana fez, naquele momento, uma ressalva importante: os dados disponíveis não permitiam afirmar qual autoridade utilizava especificamente a linha.

Ou seja, a CPMI havia conseguido chegar ao STF, mas ainda queria saber quem estava efetivamente com aquele telefone.

Linha foi ativada justamente no dia da aprovação de Moraes

Outro dado encontrado durante aquela investigação aumentou a curiosidade sobre o número.

Segundo documento do Sittel obtido pelo SBT News, a linha havia sido ativada em 22 de fevereiro de 2017.

A data chama atenção porque foi exatamente naquele dia que o plenário do Senado aprovou a indicação de Alexandre de Moraes para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

O cadastro apresentado pelo Sittel, entretanto, tinha como assinante o próprio STF, e não Alexandre de Moraes.

Portanto, a coincidência da data funciona como mais um indício sobre a utilização da linha, mas não substitui a identificação formal de seu usuário.

Pessoas que conversavam com Moraes reconheceram o número

Na época, o SBT News também procurou pessoas que mantinham contato com Alexandre de Moraes.

Segundo a reportagem, parlamentares que conversavam com o ministro confirmaram que o número encontrado na agenda de Vorcaro era utilizado por Moraes.

Outros veículos também relataram ter identificado a utilização da linha pelo ministro em períodos anteriores.

Isso aumentou os indícios de que o contato salvo por Vorcaro poderia efetivamente estar relacionado a Moraes.

Mas ainda faltava uma resposta institucional do Supremo sobre quem oficialmente utilizara aquele telefone nas datas relevantes.

CPMI pediu histórico de cinco anos ao STF

Carlos Viana decidiu então encaminhar um ofício ao Supremo.

O pedido era objetivo: a Corte deveria informar quem havia utilizado aquele número funcional durante os cinco anos anteriores, abrangendo o período de janeiro de 2021 a março de 2026.

A intenção era esclarecer quem estava de posse da linha quando ocorreram as comunicações encontradas nos dados de Vorcaro.

O STF respondeu pedindo que a CPMI apresentasse mais esclarecimentos sobre a finalidade da solicitação antes do fornecimento das informações.

A Corte não confirmou naquela resposta se a linha pertencia ou havia pertencido a Alexandre de Moraes.

Moraes negou ser destinatário das mensagens

Alexandre de Moraes contestou a associação feita entre ele e determinadas mensagens encontradas no material de Vorcaro.

Em março, o STF informou, a pedido do gabinete do ministro, que uma análise técnica havia indicado que as mensagens examinadas não correspondiam aos contatos de Moraes nos arquivos apreendidos.

O ministro, portanto, negou ser o destinatário das mensagens atribuídas a ele naquele episódio.

A discussão, porém, não terminou ali.

CPMI acabou sem relatório final aprovado

Poucos dias depois, os trabalhos da CPMI chegaram ao fim.

Na madrugada de 28 de março, depois de uma sessão que atravessou horas de debates, o relatório apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar foi rejeitado.

O placar foi:

  • 19 votos pela rejeição;
  • 12 votos favoráveis ao relatório.

O documento possuía mais de 4 mil páginas e propunha o indiciamento de 216 pessoas por diferentes crimes relacionados às investigações.

A rejeição representou uma vitória política da base governista, que formou maioria contra o parecer de Alfredo Gaspar.

Relatório alternativo também não foi votado

Existe outro detalhe importante para compreender corretamente como a CPMI terminou.

Parlamentares governistas apresentaram um relatório alternativo, sob liderança do deputado Paulo Pimenta.

O texto também propunha dezenas de indiciamentos e apresentava uma interpretação diferente sobre a origem e o desenvolvimento das fraudes investigadas.

Depois da rejeição do relatório de Alfredo Gaspar, entretanto, Carlos Viana encerrou os trabalhos sem colocar o parecer alternativo em votação.

O resultado foi incomum:

depois de sete meses de investigação, mais de 2 mil requerimentos aprovados e dezenas de depoimentos, a CPMI do INSS terminou sem um relatório final oficialmente aprovado.

Mas o telefone não desapareceu

Os trabalhos da CPMI terminaram, mas o número encontrado no celular de Vorcaro voltou a aparecer.

Meses depois, a Polícia Federal produziu um relatório a partir do material extraído dos aparelhos apreendidos do ex-banqueiro.

As informações reveladas em setembro trouxeram novamente comunicações atribuídas a Alexandre de Moraes.

E foi aí que surgiu uma conexão importante com aquilo que a CPMI havia descoberto meses antes.

BBC cruzou os números: é a mesma linha

A BBC News Brasil comparou o telefone atribuído a Alexandre de Moraes no relatório recente da Polícia Federal com o número investigado pela CPMI do INSS.

Segundo a apuração, trata-se do mesmo número.

A reportagem também realizou verificações independentes utilizando ferramentas de fontes abertas.

Serviços de identificação e busca reversa apresentaram associações do telefone ao nome “Min Alexandre de Moraes”.

Esses serviços utilizam, entre outras fontes, informações compartilhadas ou cadastradas por usuários e, portanto, não possuem o mesmo peso de uma confirmação oficial da operadora.

Mas o resultado acrescenta outro elemento aos indícios já existentes.

PF atribuiu comunicações a Moraes

O relatório mais recente da Polícia Federal analisa uma série de comunicações entre Vorcaro e diferentes personagens.

Segundo a investigação, o número associado a Moraes aparece em conversas mantidas com o ex-banqueiro.

A PF também identificou uma característica incomum nessas comunicações.

Parte das respostas teria sido enviada por meio de imagens de visualização única no WhatsApp, contendo capturas de textos escritos em aplicativos de notas.

Esse tipo de mensagem desaparece depois de visualizado, dificultando sua recuperação posterior no aparelho do destinatário.

A investigação conseguiu recuperar mensagens enviadas por Vorcaro, mas não todo o conteúdo que teria sido enviado na direção contrária.

Moraes trocou número e aparelho em fevereiro

Outro elemento revelado recentemente é que Alexandre de Moraes trocou aparelho, chip e número telefônico na segunda semana de fevereiro de 2026.

A mudança ocorreu quando as investigações sobre o Banco Master já estavam em andamento e a Polícia Federal analisava aparelhos apreendidos de Daniel Vorcaro.

A proximidade temporal, isoladamente, não demonstra que a troca tenha sido feita para ocultar informações.

Pessoas trocam aparelhos e números por diferentes razões, e não há decisão judicial estabelecendo que a mudança tenha ocorrido para prejudicar uma investigação.

O fato, entretanto, ganhou relevância diante das dúvidas sobre a identificação e preservação das comunicações.

O que sabemos até agora?

A cronologia permite estabelecer alguns fatos objetivos:

  • o contato “Alexandre de Moraes Brasília” apareceu na agenda de Daniel Vorcaro;
  • a CPMI consultou o Sittel e confirmou que o número estava cadastrado em nome do STF;
  • a linha foi ativada em 22 de fevereiro de 2017, data em que Moraes foi aprovado pelo Senado para o Supremo;
  • parlamentares que mantinham contato com Moraes disseram reconhecer o número como utilizado pelo ministro;
  • a CPMI pediu ao STF que informasse os usuários da linha nos cinco anos anteriores;
  • o Supremo não confirmou naquele momento quem utilizava o telefone nas datas questionadas;
  • em setembro, o mesmo número reapareceu no relatório da Polícia Federal atribuído a comunicações de Moraes;
  • uma verificação independente da BBC News Brasil encontrou novas associações entre a linha e o ministro.

E o que ainda não está provado?

Também existem perguntas que permanecem abertas.

A principal delas é determinar oficialmente quem estava utilizando a linha em cada período específico das comunicações.

Outra questão é estabelecer o conteúdo completo das conversas e, principalmente, se algum pedido feito por Vorcaro resultou efetivamente em alguma providência irregular de autoridade pública.

Contato, conversa ou reunião com Daniel Vorcaro não são, por si só, provas da prática de crime.

É necessário demonstrar eventual conduta ilícita, finalidade e participação de cada pessoa investigada.

Uma história que começou meses antes

As revelações desta semana dão novo significado a uma discussão que poderia parecer encerrada quando a CPMI terminou sem relatório final aprovado.

Em março, os parlamentares já tinham em mãos um número salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”.

Descobriram que a linha estava vinculada ao STF.

Pediram à Corte que identificasse quem havia utilizado aquele telefone.

A CPMI acabou poucos dias depois, sem conseguir aprovar seu relatório final.

Agora, meses depois, o mesmo número reaparece em uma investigação da Polícia Federal que atribui comunicações ao ministro.

Isso não prova, sozinho, qualquer irregularidade de Alexandre de Moraes. Mas mostra que a dúvida sobre aquele telefone não nasceu com as revelações de setembro: ela já estava formalmente colocada pelo Congresso desde março.

E é justamente por isso que uma pergunta feita meses atrás voltou ao centro da crise: quem utilizava aquela linha quando Daniel Vorcaro enviava suas mensagens?


Fontes

Senado Federal e notas oficiais da CPMI do INSS; Câmara dos Deputados; SBT News; BBC News Brasil; UOL; Metrópoles; informações públicas da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal.

Localizacao atualizada.
Radio Aliança | FM 105,9 - Porto Velho RO
Radio online