“Se isso continuar, nenhum de nós escapa”: fala de Lula sobre delações volta a circular nas redes
Fala de Lula dizendo que “se isso continuar, nenhum de nós escapa” é verdadeira e foi feita em 2017, durante críticas ao uso de delações premiadas na Lava Jato.
Declaração foi feita em 2017, durante críticas de Lula ao uso de delações premiadas na Operação Lava Jato. A frase é verdadeira, mas o contexto completo mostra que o petista defendia que acusações fossem acompanhadas de provas e garantia de defesa.
Uma declaração feita por Luiz Inácio Lula da Silva há quase uma década voltou a ganhar espaço nas redes sociais. O trecho que chama atenção é curto e, principalmente pelo momento político em que foi pronunciado, tornou-se uma das frases frequentemente resgatadas por adversários do petista:
“Porque, se isso continuar, nenhum de nós escapa.”
A frase é verdadeira. Lula pronunciou essas palavras em 28 de junho de 2017, durante um evento comemorativo pelos 25 anos da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT).
Naquele período, a Operação Lava Jato dominava o cenário político brasileiro, e Lula era alvo de investigações e processos relacionados à operação.
O que Lula estava dizendo quando fez a declaração?
O contexto é fundamental para compreender corretamente a frase.
Durante o discurso, Lula criticava a possibilidade de alguém ser preso apenas porque outra pessoa havia feito uma acusação em uma delação premiada.
Antes da frase que viralizou, Lula afirmou defender a responsabilização de quem tivesse efetivamente cometido crimes.
“Eu quero que qualquer pessoa que tenha roubado seja presa.”
O petista, porém, argumentou que uma acusação deveria ser acompanhada de provas e que o acusado deveria ter direito de se defender.
Foi dentro desse raciocínio que pronunciou a frase:
“Porque, se isso continuar, nenhum de nós escapa.”
Frase não foi inventada ou produzida por inteligência artificial
Como ocorre atualmente com diversas declarações antigas que voltam a circular nas redes, surgiram dúvidas sobre a autenticidade do trecho.
Nesse caso, porém, não se trata de uma montagem recente nem de uma frase criada artificialmente.
A declaração aparece em registros do discurso realizado por Lula em 2017 e já foi objeto de verificações jornalísticas.
“Nenhum de nós escapa” chamou atenção
Mesmo considerando o contexto completo, a escolha das palavras acabou adquirindo vida própria no debate político.
Adversários de Lula passaram a interpretar a expressão “nenhum de nós escapa” como um deslize do então ex-presidente.
A leitura feita por seus críticos é de que a utilização de “nós” teria produzido uma declaração politicamente constrangedora justamente quando diferentes políticos e empresários estavam sendo investigados pela Lava Jato.
Essa é, entretanto, uma interpretação política da frase.
O registro completo não mostra Lula confessando crime ou afirmando que ele e seus aliados seriam culpados.
Qual era o argumento de Lula?
O argumento apresentado pelo petista era de que, caso uma delação fosse suficiente por si só para levar alguém à prisão, qualquer pessoa poderia ser acusada por um terceiro e acabar presa sem que existissem outras provas.
Por isso, Lula defendia que uma acusação feita em colaboração premiada precisaria ser submetida à investigação, ao contraditório e às demais garantias do processo judicial.
Essa distinção é importante porque delação premiada não equivale automaticamente à comprovação de uma acusação.
Informações fornecidas por colaboradores podem orientar investigações e revelar provas, mas as declarações precisam ser confrontadas com outros elementos para fundamentar responsabilizações.
Lula vivia momento decisivo da Lava Jato
A data da declaração também ajuda a explicar por que a frase provocou tanta repercussão.
Quando discursou em 28 de junho de 2017, Lula aguardava uma decisão do então juiz federal Sergio Moro no processo relacionado ao tríplex do Guarujá.
Poucos dias depois, em 12 de julho de 2017, Moro condenou Lula em primeira instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
A condenação foi posteriormente confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e pelo Superior Tribunal de Justiça, com alterações na pena.
Condenações seriam anuladas anos depois
A história judicial de Lula, entretanto, sofreu uma mudança decisiva em 2021.
O Supremo Tribunal Federal confirmou a decisão que anulou as condenações da Justiça Federal do Paraná relacionadas aos processos da Lava Jato contra Lula, ao reconhecer a incompetência daquela vara federal para julgar os casos.
A anulação das condenações não correspondeu a uma decisão do STF declarando Lula inocente após reexaminar todas as provas e concluir o mérito das acusações. O fundamento foi processual, relacionado à competência da Justiça Federal de Curitiba.
Com a anulação, Lula recuperou seus direitos políticos e voltou a disputar eleições, sendo eleito presidente da República novamente em 2022.
STF também declarou Sergio Moro parcial em processo de Lula
Outro acontecimento relevante daquele período foi a decisão da Segunda Turma do STF que reconheceu a parcialidade de Sergio Moro na condução do processo envolvendo o tríplex.
Essa decisão foi diferente daquela que anulou as condenações por incompetência da vara.
Os dois acontecimentos contribuíram para desmontar juridicamente os efeitos das condenações que haviam impedido Lula de disputar a eleição presidencial de 2018.
Por que uma fala de 2017 voltou a circular em 2026?
Declarações antigas de políticos frequentemente retornam ao debate quando encontram relação com acontecimentos atuais.
No caso dessa fala, a expressão “nenhum de nós escapa” possui forte impacto quando apresentada isoladamente e, por isso, continua sendo compartilhada em vídeos curtos e publicações políticas.
O trecho verdadeiro permite diferentes avaliações políticas, mas o contexto não deve ser retirado da notícia.
Lula estava criticando o que considerava uso inadequado das delações premiadas e defendendo que acusações fossem acompanhadas de provas e direito de defesa.
A frase é verdadeira; a interpretação exige contexto
É possível, portanto, separar claramente o fato da interpretação.
Lula realmente disse “se isso continuar, nenhum de nós escapa”.
Também é verdade que a escolha da expressão “nenhum de nós” chamou atenção e continua sendo explorada politicamente anos depois.
Por outro lado, não é correto apresentar a frase como uma confissão de Lula. O restante do discurso mostra que o então ex-presidente argumentava que qualquer pessoa poderia ser atingida por uma acusação baseada exclusivamente na palavra de um delator.
Quase uma década depois, a frase continua despertando interpretações e reações políticas. Mas o registro histórico permite ao leitor conhecer não apenas as palavras que viralizaram, como também o que estava sendo discutido quando elas foram pronunciadas.
Fontes
Agência Lupa; registros do discurso de Lula de 28 de junho de 2017; Supremo Tribunal Federal (STF); informações públicas sobre os processos da Operação Lava Jato.