Celular de Vorcaro entra no centro da crise após mensagens atingirem filho de Nunes Marques antes de sessão do STF
Mensagens do celular de Vorcaro atingiram pessoas próximas a ministros do STF. Nunes Marques declarou-se impedido após revelações envolvendo seu filho, mas não há prova de que o conteúdo tenha sido usado para chantageá-lo
O conteúdo extraído do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornou-se uma das peças mais explosivas da crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF).
Às vésperas da sessão que discutiria uma possível investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, diferentes integrantes da Corte buscaram acesso à íntegra do material apreendido pela Polícia Federal.
Entre eles estavam Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e o próprio Moraes.
Ao mesmo tempo, mensagens provenientes do aparelho passaram a revelar referências a pessoas próximas de outros integrantes do Supremo, entre elas Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques.
Malu Gaspar levanta questionamento sobre pressão dentro do STF
A jornalista Malu Gaspar levantou questionamentos sobre o efeito que o acesso a esse enorme conjunto de informações poderia produzir dentro da disputa entre os ministros.
Segundo a avaliação atribuída à jornalista, informações encontradas no aparelho poderiam funcionar como instrumento de pressão sobre integrantes da Corte atingidos direta ou indiretamente pelas mensagens.
Trata-se de uma interpretação sobre os bastidores da crise. Não existe, até o momento, conclusão judicial estabelecendo que ministros tenham utilizado o conteúdo do celular de Vorcaro para chantagear colegas.
Mensagens mencionaram filho de Nunes Marques
O caso ganhou um elemento particularmente delicado com a divulgação de mensagens envolvendo Kevin Marques, advogado e filho do ministro Kassio Nunes Marques.
Em uma conversa revelada pela imprensa, o então diretor jurídico do Banco Master, Luiz Rennó, fez referência a pagamentos de R$ 500 mil mensais ao advogado.
Outra mensagem continha uma planilha com o nome e o telefone de Kevin acompanhados da expressão “dominado aqui”.
A existência das mensagens não comprova que Kassio Nunes Marques tenha recebido dinheiro, participado de irregularidade ou atuado em benefício do Banco Master.
Também não significa, isoladamente, que os pagamentos mencionados ao advogado fossem ilícitos. A natureza dos serviços e das relações contratuais precisa ser analisada antes de qualquer conclusão.
Nunes Marques deixa julgamento
No início da sessão de terça-feira (15), Kassio Nunes Marques anunciou que não participaria da votação envolvendo Alexandre de Moraes.
“Me declaro impedido.”
Publicamente, Nunes Marques relacionou sua decisão principalmente à presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O ministro afirmou que o julgamento poderia produzir consequências político-eleitorais e que, na condição de presidente do TSE, não se sentia confortável para participar.
A saída reduziu o número de ministros disponíveis para participar daquela deliberação.
Pedidos pelo celular começaram antes da sessão
Dias antes do julgamento, Cristiano Zanin passou a cobrar acesso integral aos dados extraídos do celular de Vorcaro.
Zanin argumentou que todos os ministros deveriam possuir as mesmas condições para analisar os elementos que poderiam embasar a decisão do plenário.
Segundo o ministro, as provas pertenciam ao colegiado e não poderiam permanecer acessíveis apenas ao relator.
Gilmar Mendes apresentou pedido semelhante.
A Polícia Federal acabou fornecendo cópias do material aos gabinetes de Zanin, Gilmar e Alexandre de Moraes.
Mendonça era contrário à abertura indiscriminada
André Mendonça manifestou preocupação com a disponibilização integral dos dados.
Segundo ele, o aparelho contém enorme quantidade de informações pessoais e elementos relacionados a investigações ainda em andamento, e o acesso indiscriminado poderia comprometer apurações.
Zanin apresentou entendimento diferente: para ele, o acesso pelos ministros era necessário para que todos pudessem formar suas próprias convicções antes do julgamento.
Coincidência temporal alimenta questionamentos
A sequência dos acontecimentos passou a alimentar questionamentos políticos e jornalísticos.
Primeiro, ministros pressionaram para receber o conteúdo integral do celular. Depois, informações envolvendo pessoas próximas de integrantes do próprio Supremo começaram a ganhar espaço público. Na abertura da sessão, Nunes Marques declarou-se impedido.
Essa cronologia permite questionar o impacto das revelações sobre o ambiente interno da Corte.
O que ela não permite afirmar, sem provas adicionais, é que tenha existido uma operação destinada a chantagear ou retirar ministros do julgamento.
Celular de Vorcaro tornou-se uma caixa de problemas para Brasília
O aparelho apreendido pela Polícia Federal contém mensagens, documentos e registros envolvendo uma extensa rede de contatos do ex-controlador do Banco Master.
Parte desse conteúdo pode possuir relevância criminal; outra parte pode representar apenas relações profissionais, políticas ou pessoais perfeitamente lícitas.
Por isso, aparecer no celular de Vorcaro não significa ter cometido crime.
Mas a divulgação sucessiva de informações envolvendo autoridades, familiares e pessoas próximas de integrantes do Supremo transformou o aparelho em uma peça central da crise institucional.
No caso de Nunes Marques, permanece uma questão que deverá ser analisada com cuidado: qual era exatamente a relação profissional entre seu filho e pessoas ligadas ao Banco Master e qual era a natureza dos pagamentos mencionados nas mensagens?
Da mesma forma, qualquer acusação de que informações tenham sido utilizadas para pressionar ministros exigirá provas que vão além da proximidade temporal entre os vazamentos e as decisões tomadas durante o julgamento.
Fontes: Folha de S.Paulo; CNN Brasil; UOL; manifestações públicas de Cristiano Zanin e Kassio Nunes Marques; cobertura e análises de Malu Gaspar sobre a crise do Banco Master.