El Niño pode se tornar um dos mais fortes já registrados: entenda o que pode acontecer no Brasil até 2027
O El Niño deve ganhar força até o fim de 2026 e tem probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027. No Brasil, o cenário aumenta a atenção para chuvas e enchentes no Sul, seca no Norte e Nordeste, calor e risco de incêndios em diversas regiões.
Um dos fenômenos climáticos mais poderosos do planeta está ganhando força no Oceano Pacífico e poderá atingir o Brasil com efeitos muito diferentes de uma região para outra. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que o El Niño de 2026 está firmemente estabelecido e deverá continuar se intensificando nos próximos meses, podendo alcançar a categoria de “muito forte” antes de atingir seu pico no fim do ano.
A previsão chama atenção principalmente pelo grau de confiança dos modelos: segundo a OMM, existe uma probabilidade próxima de 100% de que o El Niño continue atuando até fevereiro de 2027.
No Brasil, instituições como INPE, INMET, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam já acompanham conjuntamente a evolução do fenômeno.
E o histórico mostra por que existe preocupação.
Alguns dos El Niños mais intensos das últimas décadas estiveram associados a períodos de grandes enchentes no Sul, secas no Norte e Nordeste, calor extremo, incêndios florestais e prejuízos à agricultura.
Mas afinal, o que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais de partes do Oceano Pacífico Equatorial.
Parece distante do Brasil, mas uma alteração gigantesca na temperatura de uma área tão extensa do oceano modifica a circulação da atmosfera.
Imagine o Pacífico como uma enorme fonte de calor capaz de influenciar ventos e formação de nuvens em escala planetária.
Quando as águas ficam mais quentes do que o normal, a distribuição de calor e umidade na atmosfera muda. Isso interfere na chamada circulação de Walker e modifica padrões de chuva e temperatura em diferentes continentes.
Por isso, El Niño não significa simplesmente “mais calor”.
Em determinados lugares ele favorece seca; em outros, chuva excessiva. Em algumas regiões aumenta a probabilidade de ondas de calor, enquanto em outras altera temporadas inteiras de precipitação.
O Pacífico está ficando excepcionalmente quente
É justamente o comportamento atual do oceano que está deixando os meteorologistas atentos.
Segundo a OMM, o índice Niño 3.4 — uma das principais referências utilizadas para acompanhar o fenômeno — apresentou anomalia média de aproximadamente +1,5°C entre maio e julho de 2026.
Em julho, o valor chegou a aproximadamente +2°C.
Depois disso, medições semanais entre o fim de julho e meados de agosto avançaram para aproximadamente +2,2°C a +2,6°C acima da média.
Existe ainda enorme quantidade de calor armazenada abaixo da superfície.
Em determinadas áreas do Pacífico tropical, a OMM identificou temperaturas subsuperficiais mais de 8°C acima da média durante julho e o começo de agosto.
Esse reservatório de água quente ajuda a explicar por que os modelos apontam possibilidade de fortalecimento adicional nos próximos meses.
El Niño pode ficar “muito forte”
Os meteorologistas classificam a intensidade do fenômeno de acordo com as anomalias de temperatura e outros indicadores oceânicos e atmosféricos.
No Brasil, o Painel El Niño 2026/2027 já trabalha com elevada probabilidade de um episódio muito forte durante a primavera e o começo do verão.
O boletim divulgado no início de setembro aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro.
Mais impressionante ainda é uma projeção citada pelo Cemaden: segundo a NOAA, existe atualmente 69% de probabilidade de o El Niño 2026/2027 ser o mais forte registrado desde 1950.
Isso não significa que exista 69% de probabilidade de acontecer uma catástrofe.
Intensidade do El Niño e intensidade dos desastres não são a mesma coisa.
Outros fatores, como as condições dos oceanos Atlântico e Índico, sistemas atmosféricos regionais e características locais, também influenciam o resultado.
Quase 100% de probabilidade de continuar até fevereiro
A atualização da Organização Meteorológica Mundial é particularmente incomum pela confiança apresentada.
A instituição afirma existir uma probabilidade excepcionalmente alta, próxima de 100%, de permanência do El Niño durante os trimestres setembro-novembro de 2026 e dezembro de 2026 a fevereiro de 2027.
Segundo a própria OMM, é a primeira vez que uma atualização El Niño/La Niña da organização apresenta um nível tão elevado de certeza.
Consequentemente, não existe expectativa de retorno da La Niña nesse período.
O que pode acontecer no Brasil?
O Brasil é grande demais para falar simplesmente que “El Niño traz chuva” ou que “El Niño traz seca”.
O efeito esperado praticamente se inverte dependendo da região.
As previsões oficiais brasileiras para os próximos meses apontam, de maneira geral, para mais chuva no Sul e menos chuva em boa parte do centro-norte do país, além de temperaturas acima da média em extensas áreas.
🌧️ Sul: maior preocupação com chuva, enchentes e deslizamentos
A Região Sul está entre as áreas brasileiras que exigem maior atenção.
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná historicamente podem receber chuva acima da média durante episódios de El Niño.
Para setembro, outubro e novembro de 2026, o Painel El Niño indica maior probabilidade de precipitações acima da média no Sul.
Quando sucessivos sistemas meteorológicos passam pela mesma região, o solo pode ficar saturado e os rios podem subir progressivamente.
Isso aumenta o risco de:
- enchentes;
- alagamentos;
- deslizamentos;
- cheias de rios;
- danos em estradas e pontes;
- perdas agrícolas.
O próprio Cemaden chama atenção para o histórico de grandes inundações associadas a episódios de El Niño.
🌳 Norte e Amazônia: menos chuva, rios baixos e incêndios
No Norte, o problema pode ser exatamente o contrário.
Partes da Amazônia tendem a apresentar redução das chuvas durante determinados períodos de El Niño.
O boletim brasileiro aponta possibilidade de precipitações abaixo da média em áreas do Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Acre e outras partes da Amazônia Legal.
Ao mesmo tempo, as temperaturas devem permanecer acima da média.
A combinação é perigosa:
menos chuva + temperaturas elevadas + vegetação seca = aumento do risco de incêndios florestais.
Uma estação seca prolongada também pode reduzir níveis dos rios, dificultar a navegação e afetar comunidades que dependem dos cursos d'água para transporte, abastecimento e alimentação.
☀️ Nordeste: preocupação com seca e disponibilidade de água
O Nordeste também merece acompanhamento.
As projeções apontam chuvas abaixo da média em diferentes áreas da região, acompanhadas de temperaturas superiores ao normal.
Isso pode afetar reservatórios, agricultura familiar, pastagens e pecuária, especialmente se o fenômeno continuar forte durante períodos importantes do calendário de chuvas.
É importante lembrar que os efeitos variam bastante dentro do próprio Nordeste e também dependem das condições do Oceano Atlântico.
🔥 Centro-Oeste: calor, seca e queimadas
Partes do Centro-Oeste também poderão enfrentar temperaturas elevadas e precipitações abaixo da média.
Áreas de Mato Grosso e do norte de Goiás aparecem entre aquelas que exigem atenção.
O risco não envolve apenas desconforto térmico.
Com vegetação mais seca e temperaturas elevadas, aumenta a possibilidade de propagação de incêndios no Cerrado e no Pantanal.
A agricultura também pode sofrer caso a regularização das chuvas aconteça mais tarde que o normal.
🌡️ Sudeste: calor pode ser um dos grandes problemas
No Sudeste, o comportamento é mais complexo e pode variar consideravelmente.
Para partes de Minas Gerais e Espírito Santo, as projeções atuais indicam possibilidade de chuva abaixo da média.
São Paulo aparece parcialmente sob influência de condições mais úmidas nas projeções sazonais atuais.
Mas existe um fator comum que preocupa boa parte da região: temperaturas elevadas.
O INPE já havia alertado que um El Niño durante o segundo semestre favoreceria um inverno menos frio e períodos de calor acima do normal no Sudeste.
O Cemaden também observa que episódios de El Niño podem aumentar a probabilidade de ondas de calor no Brasil.
Isso já aconteceu antes?
Sim — e algumas vezes de maneira muito intensa.
Três episódios são particularmente importantes quando tentamos entender o que um El Niño muito forte pode representar:
1982/1983 — um El Niño que entrou para a história
O episódio de 1982/83 é classificado como muito forte e foi um dos grandes eventos do século XX.
Santa Catarina sofreu especialmente.
Registros da Epagri mostram uma sequência de chuvas prolongadas entre 1982 e 1983. Em julho de 1983, volumes excepcionais provocaram inundações severas em diferentes regiões catarinenses.
A Bacia do Itajaí enfrentou uma situação extrema, com cidades isoladas e infraestrutura urbana atingida.
Enchente de 1983 no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Foto histórica reproduzida por O Município.
As fotografias daquela época mostram bairros inteiros tomados pela água e ajudam a dimensionar por que eventos muito fortes de El Niño são acompanhados com tanta atenção no Sul.
1997/1998 — um dos maiores El Niños registrados
Outro episódio histórico aconteceu entre 1997 e 1998.
No Brasil, seus efeitos foram praticamente opostos entre algumas regiões.
Enquanto o Sul registrou chuvas muito acima do normal em determinados períodos, a Amazônia ficou mais seca e enfrentou aumento de queimadas.
Posteriormente, o Nordeste sofreu uma forte seca.
Mapa elaborado com dados do CPTEC/INPE mostra anomalias de chuva durante o grande El Niño de 1997/98. Reprodução/Época - dados CPTEC/INPE.
Esse episódio é uma excelente demonstração de como o mesmo fenômeno consegue produzir excesso de água em uma região brasileira e falta dela em outra.
2015/2016 — outro episódio muito forte
O El Niño de 2015/16 também entrou na categoria dos grandes eventos recentes.
Em Santa Catarina, por exemplo, a Epagri registra acumulados próximos de 500 milímetros em determinadas áreas durante julho de 2015.
Outubro daquele ano voltou a apresentar impactos importantes em partes do estado.
Enquanto isso, outras regiões brasileiras enfrentaram temperaturas elevadas e déficits de chuva.
2023/2024 deixou uma lembrança ainda recente
Nem precisamos voltar muitas décadas para encontrar outro exemplo.
O El Niño 2023/24 esteve associado a importantes alterações climáticas no Brasil.
O INPE destaca episódios de chuvas muito intensas no Sul em setembro de 2023 e novamente em abril e maio de 2024.
Santa Catarina registrou sucessivas inundações em 2023. Segundo a Epagri, mais de 50 mil propriedades rurais e pesqueiras foram atingidas naquele outubro, com quase R$ 2 bilhões em danos.
Ao mesmo tempo, partes da Amazônia enfrentaram condições severas de seca durante aquele episódio.
2026 pode ser pior que esses anos?
Ainda não é possível afirmar isso.
Os indicadores atuais mostram um evento excepcionalmente forte e existe a possibilidade de ele entrar para o grupo dos maiores registrados.
Mas comparar apenas a temperatura do Pacífico não permite prever exatamente quantas enchentes, secas ou ondas de calor ocorrerão.
Um El Niño muito forte aumenta as probabilidades de determinados padrões climáticos. Ele não determina sozinho onde acontecerá cada tempestade ou desastre.
É justamente por isso que previsões meteorológicas de curto prazo continuarão sendo fundamentais mesmo durante um fenômeno climático de vários meses.
E a agricultura?
O agronegócio brasileiro também acompanha o fenômeno com atenção.
No Sul, excesso de chuva pode encharcar o solo, dificultar colheitas, prejudicar operações agrícolas e favorecer doenças fúngicas.
No Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste, o problema pode ser falta de água.
Culturas dependentes da chuva podem sofrer estresse hídrico, enquanto temperaturas elevadas aumentam a evaporação da água presente no solo.
O resultado final dependerá da cultura, região, época do plantio e distribuição das chuvas.
O fenômeno pode mexer até com o preço dos alimentos
Quando grandes regiões produtoras enfrentam seca ou excesso de chuva, as consequências podem ultrapassar as fazendas.
Perdas de produtividade podem reduzir a oferta de determinados produtos e pressionar preços.
O impacto não necessariamente será igual para todas as culturas: enquanto determinada região pode perder produção devido à seca, outra pode ter condições favoráveis.
Não significa que choverá todos os dias no Sul
Existe ainda uma confusão comum quando se fala em previsão climática.
Dizer que existe tendência de chuva acima da média no Sul durante um trimestre não significa que choverá diariamente durante três meses.
Pode haver longos períodos sem chuva intercalados por episódios extremamente volumosos capazes de elevar o total mensal ou trimestral.
Da mesma maneira, previsão de chuva abaixo da média na Amazônia não significa ausência completa de tempestades.
São tendências estatísticas para períodos maiores.
Por que 2026/2027 está chamando tanta atenção?
Existem três fatores principais.
Primeiro, o El Niño está se intensificando rapidamente.
Segundo, existe uma quantidade excepcional de calor acumulada no Oceano Pacífico.
Terceiro, os diferentes modelos climáticos estão apresentando forte concordância sobre a continuidade do fenômeno.
Foi justamente essa combinação que levou a Organização Meteorológica Mundial a usar uma linguagem incomumente contundente em sua atualização de setembro.
A organização afirma que os países precisam reforçar sistemas de alerta e preparação para possíveis episódios de calor extremo, secas e inundações.
Os próximos meses serão decisivos
A primavera começa neste mês no Hemisfério Sul e será um período fundamental para acompanhar o comportamento do El Niño.
Para o Brasil, a atenção estará especialmente voltada ao excesso de chuva no Sul, à possibilidade de seca no Norte e Nordeste, às temperaturas elevadas em grande parte do território e ao risco de incêndios no período seco.
Mas o cenário continuará sendo atualizado conforme novas medições do oceano e da atmosfera forem incorporadas aos modelos.
El Niño não significa que todos os eventos extremos previstos necessariamente acontecerão. Significa que as condições atmosféricas estão sendo empurradas para um cenário em que determinados extremos se tornam mais prováveis.
O Brasil já viveu isso em 1982/83, 1997/98, 2015/16 e, mais recentemente, em 2023/24.
Agora, com o Pacífico novamente excepcionalmente aquecido e um El Niño que ainda não atingiu seu pico, os próximos meses serão acompanhados de perto por meteorologistas, Defesa Civil, agricultores e autoridades em todo o país.
Fontes
Organização Meteorológica Mundial (OMM/WMO), atualização El Niño/La Niña de setembro de 2026; Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI), Painel El Niño 2026/2027; Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE/CPTEC); Instituto Nacional de Meteorologia (INMET); Epagri/Ciram; NOAA.