A História das Assembleias de Deus no Brasil — As origens na Suécia
Antes de a Assembleia de Deus se tornar uma das maiores denominações evangélicas do Brasil, sua história começou muito longe da Amazônia, das periferias brasileiras e dos grandes templos espalhados pelo país.Ela começou...
Antes de a Assembleia de Deus se tornar uma das maiores denominações evangélicas do Brasil, sua história começou muito longe da Amazônia, das periferias brasileiras e dos grandes templos espalhados pelo país.
Ela começou na Suécia
Foi em meio a uma Europa marcada por dificuldades econômicas, migração, simplicidade e forte vida religiosa que nasceram os dois homens que, anos depois, seriam lembrados como os pioneiros do movimento assembleiano no Brasil: Gunnar Vingren e Daniel Berg.
Eles não eram ricos, não pertenciam à elite religiosa e não chegaram ao Brasil acompanhados de grandes estruturas missionárias. Pelo contrário. Vieram movidos por convicção espiritual, fé pentecostal e disposição para enfrentar um país desconhecido, de idioma diferente e costumes muito distantes da realidade escandinava.
Uma Suécia marcada por fé e dificuldades
No fim do século 19, a Suécia vivia um período de fortes mudanças sociais. Muitas famílias enfrentavam dificuldades econômicas, e milhares de suecos deixaram o país em busca de melhores condições de vida, principalmente nos Estados Unidos.
Foi nesse contexto que cresceram Gunnar Vingren e Daniel Berg.
A Suécia daquela época tinha forte presença luterana, mas também via crescer movimentos livres, especialmente entre batistas e grupos avivalistas. Era um ambiente onde muitos cristãos buscavam uma experiência de fé mais pessoal, missionária e voltada para a evangelização.
Esse cenário ajudou a formar espiritualmente os dois jovens suecos que mais tarde cruzariam o oceano em direção ao Brasil.
Gunnar Vingren: o jovem pregador chamado para missões
Gunnar Vingren nasceu em 8 de agosto de 1879, em Östra Harg, na Suécia. Criado em uma família cristã, desde cedo demonstrou interesse pela vida religiosa.
Ainda jovem, foi batizado e passou a se envolver com atividades da igreja batista. Seu caminho espiritual foi marcado pelo desejo de pregar, ensinar e servir.
Em 1903, Vingren deixou a Suécia e foi para os Estados Unidos, como fizeram tantos outros imigrantes escandinavos daquele período. Lá, estudou teologia no Seminário Teológico Sueco de Chicago e passou a atuar entre comunidades batistas de língua sueca.
Nos Estados Unidos, Vingren entrou em contato com o movimento pentecostal, que ganhava força no início do século 20. A mensagem sobre o batismo com o Espírito Santo, os dons espirituais e uma vida cristã marcada por avivamento impactou profundamente sua trajetória.
A partir desse contato, sua visão ministerial mudou. Ele passou a entender que sua missão não estaria restrita às igrejas onde já atuava, mas alcançaria terras distantes.
Daniel Berg: o trabalhador que se tornou missionário
Daniel Berg nasceu em 19 de abril de 1884, em Vargön, também na Suécia. Seu nome de nascimento era Gustaf Daniel Högberg.
Diferente da imagem tradicional de muitos líderes religiosos, Berg era um homem simples, trabalhador e de origem humilde. Aprendeu ofício manual e chegou a atuar como fundidor e operário.
Ainda jovem, também emigrou para os Estados Unidos. Como muitos suecos da época, buscava melhores oportunidades de vida e trabalho.
Nos Estados Unidos, Daniel Berg conheceu mais profundamente a fé pentecostal. Esse encontro transformou sua caminhada. Ele passou de imigrante trabalhador a homem disposto a entregar a própria vida ao serviço missionário.
Foi nesse ambiente pentecostal entre imigrantes escandinavos que sua história se cruzou com a de Gunnar Vingren.
O encontro que mudaria a história evangélica brasileira
Gunnar Vingren e Daniel Berg se conheceram nos Estados Unidos, em meio a reuniões pentecostais e ambientes de oração.
Segundo a tradição histórica assembleiana, a decisão de vir ao Brasil nasceu após momentos de oração e direção espiritual. O nome “Pará” teria sido mencionado como destino missionário, mesmo sem que eles conhecessem profundamente o país ou a região.
Na prática, isso significava deixar para trás segurança, idioma, trabalho, cultura e vínculos estabelecidos.
Não havia garantia de sucesso. Não havia promessa de conforto. Não havia estrutura financeira robusta esperando por eles no Brasil.
Havia apenas fé.
E foi essa fé que colocou dois jovens suecos em um navio rumo a uma terra distante.
A força do movimento pentecostal
Para entender a missão de Vingren e Berg, é preciso lembrar que o pentecostalismo crescia com força no início do século 20.
O movimento defendia uma experiência cristã marcada pela ação do Espírito Santo, pela oração intensa, pelo evangelismo, pelos dons espirituais e pela crença de que Deus continuava atuando de forma viva na igreja.
Essa mensagem encontraria, no Brasil, um terreno fértil entre pessoas simples, trabalhadores, famílias pobres, ribeirinhos, moradores das periferias e comunidades muitas vezes esquecidas pelas estruturas tradicionais.
Mas antes de alcançar o Brasil, ela primeiro moldou aqueles dois missionários suecos.
Dois homens comuns, uma missão incomum
O que torna a história de Gunnar Vingren e Daniel Berg tão marcante é justamente a simplicidade dos dois.
Eles não chegaram ao Brasil como grandes autoridades internacionais. Não eram celebridades religiosas. Não tinham influência política. Não comandavam uma instituição poderosa.
Gunnar tinha formação pastoral. Daniel tinha mãos de trabalhador.
Um pregava. O outro trabalhava, evangelizava e ajudava a sustentar a missão.
A combinação desses dois perfis seria decisiva para o início da Assembleia de Deus no Brasil. A igreja nasceria com marca espiritual, mas também com forte ligação com o povo simples, trabalhador e perseverante.
Essa característica acompanharia a denominação por toda a sua história.
A semente antes da chegada ao Brasil
Quando se fala da Assembleia de Deus no Brasil, normalmente se começa por Belém do Pará, em 1911. Mas a semente foi plantada antes.
Foi plantada na Suécia, na infância cristã dos fundadores.
Foi regada nos Estados Unidos, em meio ao movimento pentecostal.
Foi fortalecida em reuniões de oração, experiências espirituais e decisões de fé.
E finalmente seria lançada em solo brasileiro quando Gunnar Vingren e Daniel Berg desembarcaram em Belém, em novembro de 1910.
Ali começaria uma nova fase.
Dois imigrantes suecos, sem domínio da língua portuguesa e sem recursos abundantes, chegariam ao Norte do Brasil com uma mensagem que mudaria profundamente o cenário evangélico nacional.
Um começo pequeno para uma história gigante
A história das Assembleias de Deus no Brasil não começou em palácios, gabinetes ou grandes auditórios.
Começou com dois missionários, malas simples, fé profunda e uma convicção: anunciar o Evangelho.
O que viria depois ninguém poderia imaginar completamente.
A pequena missão iniciada por Gunnar Vingren e Daniel Berg se espalharia por cidades, vilas, rios, seringais, bairros pobres, capitais e interiores. Com o passar das décadas, alcançaria milhões de brasileiros e se tornaria uma das maiores forças religiosas do país.
Mas antes dos templos, convenções, rádios, programas de televisão, influência social e presença política, houve uma origem simples.
Houve a Suécia.
Houve dois jovens.
Houve uma chamada.
E houve uma decisão de obedecer.
Na próxima parte desta série, vamos acompanhar a viagem dos missionários e a chegada de Gunnar Vingren e Daniel Berg ao Brasil em 1910, quando Belém do Pará se tornaria o berço de uma das maiores histórias do cristianismo brasileiro.