BaseNews Jornalismo com contexto dentro da Mistago
A História das Assembleias de Deus no Brasil — Como a igreja chegou às periferias

A História das Assembleias de Deus no Brasil — Como a igreja chegou às periferias

O crescimento da Assembleia de Deus ocorreu de forma intensa nas periferias urbanas, comunidades rurais, regiões ribeirinhas, aldeias indígenas e presídios. A proximidade com as pessoas, a simplicidade dos cultos e a presença constante nas comunidades ajudaram a transformar a denominação em uma das maiores igrejas evangélicas do Brasil.

WhatsApp
Quando Gunnar Vingren e Daniel Berg desembarcaram em Belém do Pará, em novembro de 1910, dificilmente poderiam imaginar que, décadas depois, a mensagem que começaram a anunciar alcançaria praticamente todos os municípios brasileiros. Mais surpreendente ainda é perceber onde esse crescimento aconteceu com maior intensidade.

Enquanto muitas igrejas concentravam suas atividades nos centros urbanos mais estruturados, a Assembleia de Deus encontrou seu espaço entre trabalhadores, moradores das periferias, comunidades ribeirinhas, sertanejos, indígenas e pessoas que, muitas vezes, viviam longe dos grandes centros religiosos do país.

Foi justamente nesses lugares que a denominação encontrou terreno fértil para crescer.

Uma igreja próxima das pessoas simples

Desde seus primeiros anos, a Assembleia de Deus desenvolveu uma característica que permaneceria ao longo de toda a sua história: a proximidade com o povo.

Os primeiros templos eram simples.

As congregações surgiam em casas, pequenos salões alugados ou construções erguidas pelos próprios membros da igreja.

Não havia preocupação com grandes estruturas.

O mais importante era que existisse um lugar onde as pessoas pudessem ouvir a Palavra de Deus.

Essa simplicidade fazia com que muitos se identificassem rapidamente com a igreja.

Operários, agricultores, pescadores, donas de casa, pequenos comerciantes e trabalhadores rurais encontravam um ambiente onde eram recebidos sem distinção de classe social.

As periferias das grandes cidades

A partir da segunda metade do século XX, o Brasil passou por um intenso processo de urbanização.

Milhões de pessoas deixaram o campo em direção às capitais e regiões metropolitanas em busca de trabalho.

Com esse movimento, surgiram novos bairros e periferias que cresciam rapidamente, muitas vezes sem infraestrutura adequada.

Foi nesses locais que inúmeras congregações da Assembleia de Deus começaram a ser abertas.

Enquanto bairros inteiros ainda aguardavam escolas, postos de saúde e serviços públicos, muitas vezes a primeira instituição organizada presente era uma pequena igreja evangélica.

Em diversos casos, os cultos aconteciam na garagem de uma casa, em um cômodo adaptado ou em um pequeno salão construído pelos próprios moradores.

O Evangelho chegou ao sertão

Se nas grandes cidades a igreja avançava pelas periferias, no interior do país o cenário era diferente.

Missionários enfrentavam estradas de terra, longas caminhadas e viagens em caminhões, cavalos, barcos e até carroças para alcançar comunidades rurais.

No sertão nordestino, muitas congregações nasceram em pequenas propriedades agrícolas, onde famílias inteiras se reuniam para estudar a Bíblia e participar dos cultos.

Em algumas localidades, o pastor visitava determinada comunidade apenas uma vez por mês.

Mesmo assim, os próprios membros mantinham as reuniões semanais, fortalecendo a igreja até a chegada da próxima visita pastoral.

A presença entre os ribeirinhos

Na Região Norte, os rios continuaram sendo as principais estradas missionárias por muitas décadas.

Pastores e evangelistas percorriam centenas de quilômetros para visitar comunidades isoladas.

Em algumas viagens, permaneciam semanas longe de casa.

Os cultos eram realizados em palafitas, escolas comunitárias, varandas de madeira ou até mesmo ao ar livre.

Muitas dessas comunidades continuam sendo atendidas por embarcações missionárias até os dias atuais.

O trabalho entre os povos indígenas

Ao longo do século XX, missionários ligados às Assembleias de Deus também desenvolveram projetos voltados para comunidades indígenas.

Respeitando as diferentes culturas e idiomas, muitos desses trabalhos envolveram alfabetização, tradução de materiais bíblicos e formação de lideranças locais.

Atualmente, existem igrejas assembleianas em diversas terras indígenas brasileiras, conduzidas, em muitos casos, pelos próprios indígenas convertidos ao cristianismo.

Os presídios também se tornaram campo missionário

Outro ambiente onde a Assembleia de Deus passou a atuar foi o sistema prisional.

Ainda no século passado, grupos de evangelização começaram a visitar unidades prisionais para realizar cultos, estudos bíblicos e acompanhamento espiritual dos detentos.

Em diferentes estados, esse trabalho contribuiu para o surgimento de congregações dentro das próprias unidades prisionais, além do acompanhamento de ex-detentos após o cumprimento da pena.

Uma igreja construída pelos próprios membros

Uma característica marcante da expansão assembleiana foi o envolvimento da própria comunidade na construção das igrejas.

Era comum que os membros se reunissem aos sábados para fabricar tijolos, levantar paredes, pintar salões e preparar o espaço onde os cultos seriam realizados.

Muitos templos históricos foram construídos praticamente sem mão de obra contratada.

Cada família contribuía da maneira que podia.

Uns doavam materiais.

Outros ofereciam trabalho.

Outros ajudavam com alimentação para os voluntários.

Essa participação coletiva fortaleceu o sentimento de pertencimento entre os membros.

Muito além da geografia

Quando se fala que a Assembleia de Deus chegou às periferias, não se trata apenas de localização geográfica.

A igreja também alcançou pessoas que muitas vezes se sentiam esquecidas.

Famílias que enfrentavam dificuldades financeiras.

Migrantes que haviam deixado suas cidades de origem.

Trabalhadores recém-chegados às grandes capitais.

Pessoas que buscavam reconstruir a vida.

Para muitos brasileiros, a igreja tornou-se o primeiro espaço de acolhimento em uma nova cidade.

Foi ali que fizeram amizades, encontraram apoio espiritual e construíram uma nova comunidade.

Um crescimento baseado na presença

Ao longo de mais de um século, a Assembleia de Deus consolidou uma característica que continua marcando sua identidade: estar presente onde as pessoas vivem.

Não apenas nos grandes centros.

Mas também nas pequenas cidades.

Nos bairros mais afastados.

Nas comunidades ribeirinhas.

Nas áreas rurais.

Nos morros.

Nos sertões.

Nas aldeias.

Essa presença constante ajudou a explicar por que a denominação conseguiu crescer de maneira tão ampla no Brasil.

Mais do que construir templos, ela estabeleceu relacionamentos com comunidades que, durante muitos anos, permaneceram distantes dos grandes centros religiosos.

Essa proximidade tornou-se uma das marcas mais conhecidas da Assembleia de Deus e preparou o caminho para um trabalho social que ganharia ainda mais força nas décadas seguintes.


Curiosidades históricas

  • Muitas das primeiras congregações urbanas funcionaram em garagens e residências.
  • Os rios amazônicos continuaram sendo importantes rotas missionárias durante todo o século XX.
  • Diversas igrejas assembleianas em áreas indígenas são lideradas atualmente por pastores indígenas.
  • Em muitos municípios brasileiros, a Assembleia de Deus foi uma das primeiras igrejas evangélicas a estabelecer presença permanente.

Leia a próxima parte

Na próxima matéria da série veremos como a Assembleia de Deus ampliou sua atuação para além da evangelização, desenvolvendo projetos de assistência social, apoio às famílias, missões humanitárias e ações comunitárias em diferentes regiões do Brasil.

Próxima matéria: A História das Assembleias de Deus no Brasil — A força social da igreja

Localizacao atualizada.