“Bomba” contra Mendonça? Reportagem revela voo em helicóptero ligado a ex-parceiro de Vorcaro, mas não aponta favorecimento
Mendonça utilizou helicóptero do Grupo Cedro para participar de evento jurídico em Itabira. O grupo pertence a empresário que teve negócios em comum com Vorcaro e aportou R$ 5,2 milhões no instituto fundado pelo ministro, mas as reportagens publicadas até agora não apresentam prova de pagamento ilegal ou favorecimento judicial.
Uma nova reportagem colocou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), novamente no centro das discussões envolvendo as conexões empresariais reveladas durante a crise do Banco Master.
A informação objetiva é esta: em agosto de 2025, Mendonça utilizou um helicóptero vinculado a uma empresa do Grupo Cedro, do empresário Lucas Kallas, para viajar de Belo Horizonte a Itabira, em Minas Gerais, onde participou de um evento jurídico.
Kallas já manteve negócios em empresas nas quais Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, também teve participação.
Mas entre esse fato e uma eventual irregularidade envolvendo o ministro existe uma distância que, até o momento, não foi preenchida por provas públicas.
O que efetivamente aconteceu
Mendonça participou, em 4 de agosto de 2025, de uma jornada jurídica realizada em Itabira.
O evento havia sido divulgado previamente e era organizado pela subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Itabira em conjunto com o Sindicato Metabase.
Para chegar ao município, o ministro utilizou um helicóptero registrado em nome da Extrativa Mineral, empresa adquirida pelo Grupo Cedro em 2020.
Segundo a reportagem do UOL, a logística entre Belo Horizonte e Itabira foi organizada pelo grupo empresarial.
Existe outra ligação importante com Mendonça
A relação entre o Grupo Cedro e Mendonça não se resume ao helicóptero.
A empresa realizou anteriormente um aporte de aproximadamente R$ 5,2 milhões no Instituto Educacional Iter, entidade fundada por Mendonça antes de o ministro posteriormente deixar sua participação na instituição.
Segundo dirigentes do Iter, o dinheiro foi formalizado por meio de contrato de mútuo conversível e destinado ao financiamento das operações iniciais da instituição.
Após a repercussão envolvendo o Banco Master, o contrato com a Cedro foi encerrado e o instituto iniciou a devolução antecipada dos recursos.
A existência desse aporte é um fato relevante e justifica questionamentos sobre a relação entre as partes. Por outro lado, o aporte, isoladamente, não comprova pagamento ilegal ou favorecimento judicial.
E onde entra Daniel Vorcaro?
A conexão apresentada pela reportagem passa pelo empresário Lucas Kallas.
Kallas é apontado como antigo parceiro de negócios de Daniel Vorcaro.
A Cedro, entretanto, contesta a caracterização dessa relação como uma sociedade empresarial direta.
Segundo a empresa, Vorcaro jamais teve participação societária ou vínculo empresarial com a Cedro ou suas controladas. O grupo argumenta que Kallas e Vorcaro tiveram participações em companhias de capital aberto que também possuíam diversos outros investidores.
Assim, a cadeia apresentada até agora é: Mendonça utilizou uma aeronave do Grupo Cedro; a Cedro pertence a Kallas; e Kallas teve negócios em comum com Vorcaro.
Vorcaro participou do voo?
Até o momento, as reportagens consultadas não apresentam prova de que Daniel Vorcaro estivesse na aeronave, tenha contratado o transporte ou determinado que Mendonça fosse levado ao evento.
Também não foi apresentada evidência pública de que o voo tenha sido oferecido em troca de alguma decisão judicial.
Portanto, relacionar diretamente o transporte de Mendonça a uma vantagem concedida por Vorcaro iria além das evidências divulgadas até agora.
Mendonça diz que não escolheu aeronave
A assessoria do ministro afirmou que Mendonça participou do encontro exclusivamente como convidado para uma atividade acadêmica e institucional.
Segundo o gabinete, ele não recebeu remuneração, cachê ou honorários.
A defesa apresentada pelo ministro é também de que toda a logística ficou sob responsabilidade dos organizadores.
“O ministro não participou da definição, da escolha ou da contratação dos fornecedores envolvidos.”
A Cedro apresentou versão compatível nesse ponto. Segundo a empresa, a aeronave foi disponibilizada a pedido da OAB-MG e do Sindicato Metabase para transportar participantes do evento, cuja lista havia sido definida pelos organizadores.
Houve pedido de tratamento especial no aeroporto
A apuração do UOL também encontrou comunicações enviadas antes da viagem.
Uma conta ligada à Cedro Aviações informou à autoridade aeroportuária da Pampulha que uma autoridade desembarcaria no local e solicitou procedimentos especiais de acesso e escolta em razão da “relevância pública” do passageiro.
A Polícia Federal verificou que não existia pedido formal de autoridade para tratamento diferenciado e determinou que fossem utilizados os procedimentos normais do aeroporto.
No dia seguinte, constatou-se que a autoridade transportada era André Mendonça.
Questionamento é legítimo; conclusão exige provas
O uso de aeronaves privadas por autoridades públicas é um tema que merece transparência, especialmente quando o proprietário ou o grupo empresarial possui interesses econômicos relevantes.
É legítimo perguntar quem disponibilizou o transporte, quem pagou os custos, quais eram as relações entre os envolvidos e se existia algum interesse perante o Poder Judiciário.
O problema surge quando a existência de relações indiretas passa a ser apresentada como demonstração de uma irregularidade que ainda não foi comprovada.
No caso revelado até agora, há fatos que merecem escrutínio: o voo ocorreu, a aeronave estava vinculada ao Grupo Cedro e o mesmo grupo realizou um aporte milionário no instituto fundado por Mendonça.
Há também uma ligação empresarial anterior entre Kallas e Vorcaro que foi destacada pela reportagem e contestada em sua extensão pela Cedro.
O que não apareceu até agora é prova pública de que Vorcaro tenha proporcionado o voo a Mendonça, de que o ministro tenha recebido pagamento ilegal ou de que o transporte tenha resultado em favorecimento judicial.
Fiscalizar um ministro do Supremo é papel legítimo da imprensa. Da mesma forma, separar fatos comprovados de associações e suspeitas é indispensável para que questionamentos legítimos não sejam transformados em acusações sem evidências.
Fontes: UOL; Folha de S.Paulo; Estado de Minas; declarações do gabinete de André Mendonça e do Grupo Cedro.