Governo recua, admite falha e libera desenhos bíblicos da Record para todas as idades
Ministério da Justiça reconhece falha na classificação dos desenhos bíblicos da Record, revoga portaria anterior e restabelece faixa livre após críticas e questionamentos.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública voltou atrás na decisão que havia elevado para 12 anos a classificação indicativa do programa Record Kids – Desenhos Bíblicos, exibido pela Record. Após a repercussão negativa e os questionamentos sobre os critérios utilizados, a pasta reconheceu que a análise anterior não havia aplicado integralmente sua própria metodologia e restabeleceu a classificação livre para todas as idades.
A mudança foi anunciada na terça-feira (3) e oficializada pela Portaria nº 4, publicada no Diário Oficial da União nesta quarta-feira (4). O novo documento revoga a Portaria nº 2.272, de 28 de outubro de 2026, responsável pela classificação anterior.
Ministério reconhece falha na avaliação
Segundo o próprio Ministério da Justiça, a primeira avaliação não considerou adequadamente elementos previstos no Guia Prático de Classificação Indicativa de 2025, incluindo o contexto cultural e religioso das narrativas, a linguagem infantil das animações e o caráter fantasioso de determinadas cenas de violência.
O reconhecimento da falha representa um ponto importante da controvérsia. A classificação inicial havia sido justificada pela presença de violência, atos criminosos, drogas lícitas e estigma ou preconceito, mas não apresentava publicamente uma descrição detalhada das cenas que motivaram cada enquadramento.
Na revisão, o ministério reconheceu a necessidade de avaliar as histórias bíblicas considerando seu contexto narrativo e religioso, e não apenas a presença isolada de determinadas situações.
Reação de parlamentares e cristãos
A decisão anterior provocou críticas de parlamentares conservadores e representantes de setores cristãos, que questionaram a classificação atribuída a um programa destinado ao público infantil.
Entre os críticos esteve o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que cobrou explicações sobre os critérios adotados. Outros parlamentares também anunciaram iniciativas para contestar a medida.
O advogado Wilian Frata apresentou uma ação popular na Justiça Federal para questionar a classificação anterior, alegando censura e perseguição religiosa.
Essas acusações representam interpretações dos autores das críticas. O Ministério da Justiça sustenta que a classificação indicativa não constitui censura, mas um instrumento de orientação às famílias.
Histórias bíblicas são reconhecidas como expressão cultural protegida
Um dos aspectos mais relevantes da revisão foi o reconhecimento, pelo próprio ministério, de que a transmissão de narrativas bíblicas em animações infantis constitui uma expressão cultural protegida pela Constituição Federal.
O programa reúne 36 episódios inspirados em passagens do Antigo e do Novo Testamento, apresentando histórias que fazem parte da tradição religiosa de milhões de brasileiros.
Essas narrativas abordam acontecimentos como conflitos, perseguições, escolhas morais, fé, perdão e redenção. Na tradição cristã, episódios que retratam violência frequentemente possuem a finalidade de ensinar sobre suas consequências, e não de incentivar sua prática.
A revisão reconhece a importância de considerar esse contexto ao analisar produções religiosas destinadas ao público infantil.
Decisão reforça debate sobre transparência do poder público
O recuo do Ministério da Justiça também levanta questionamentos sobre a qualidade e a fundamentação das decisões administrativas que afetam conteúdos culturais e religiosos.
Se a própria pasta reconheceu que sua metodologia não foi integralmente aplicada, torna-se legítimo questionar como uma avaliação incompleta resultou em uma alteração oficial da classificação indicativa.
O episódio reforça a importância da transparência, da fundamentação técnica e do respeito à liberdade religiosa na atuação do Estado.
Também demonstra que decisões administrativas podem ser revistas quando são identificadas falhas na aplicação dos critérios legais e técnicos.
Desenhos bíblicos voltam à classificação livre
Com a publicação da nova portaria, o programa Record Kids – Desenhos Bíblicos recupera oficialmente a classificação livre, sem a recomendação etária de 12 anos anteriormente estabelecida.
É importante esclarecer que a classificação anterior não havia proibido crianças de assistir à atração nem impedido legalmente sua transmissão pela manhã. A classificação indicativa possui caráter orientativo e busca oferecer informações aos pais e responsáveis.
A nova decisão, entretanto, elimina a recomendação restritiva e restabelece a classificação originalmente pretendida pela emissora.
O caso termina, nesta etapa, com o reconhecimento de uma falha pelo Ministério da Justiça e a revisão formal de sua decisão. Para famílias cristãs e defensores da liberdade religiosa, a controvérsia deixa uma discussão relevante sobre a necessidade de respeitar o contexto das Escrituras Sagradas e assegurar tratamento igualitário às diferentes manifestações culturais e religiosas.