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Lula volta ao centro de debate após dizer que “ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo”

Lula volta ao centro de debate após dizer que “ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo”

Uma declaração de Lula afirmando que “ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo” voltou a circular nas redes sociais. A fala é verdadeira, mas ocorreu em 17 de outubro de 2024, durante um comício em Camaçari, na Bahia. Lula associou Jesus à esquerda por sua defesa dos pobres, doentes e necessitados. Historicamente, porém, os conceitos modernos de esquerda e direita surgiram somente muitos séculos depois de Cristo, tornando a classificação uma interpretação política do presidente

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Lula volta ao centro de debate após dizer que “ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo”

Declaração feita pelo presidente durante comício na Bahia voltou a circular nas redes sociais. Lula associou Jesus à esquerda por sua atuação em favor dos pobres e necessitados, mas comparação envolve conceitos políticos que surgiram muitos séculos depois do período de Cristo.


Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ganhar repercussão nas redes sociais ao associar Jesus Cristo diretamente à esquerda política.

A fala é verdadeira, mas não é recente.

Lula fez a declaração em 17 de outubro de 2024, durante um comício realizado em Camaçari, na Bahia, em apoio a Luiz Caetano, então candidato do PT à prefeitura do município.

Durante o discurso, o presidente afirmou que seu grupo político não deveria ter receio de se identificar como de esquerda e utilizou Jesus como referência.

“A gente não tem medo de dizer que a gente é de esquerda porque ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo.”

Na sequência, Lula justificou sua interpretação afirmando que Jesus teria sido aquele que mais lutou pelos pobres.

Por que Lula chamou Jesus de “esquerda”?

A declaração ocorreu enquanto Lula elogiava a composição da chapa formada por Luiz Caetano (PT) e Pastora Déa Santos (PSB).

O presidente destacou o fato de a candidata a vice ser mulher, negra e pastora evangélica e classificou a aliança entre PT e PSB como uma união de dois partidos de esquerda.

Foi nesse contexto que Lula fez a comparação com Jesus.

Segundo o presidente, a defesa dos pobres, o cuidado com os doentes e a atenção aos necessitados seriam características que permitiriam associar Cristo aos valores que Lula identifica com a esquerda.

Ele também afirmou que os ricos da época teriam mandado crucificar Jesus por causa dessa atuação.

Jesus pode ser classificado como de esquerda?

Do ponto de vista histórico, existe um problema evidente em tentar enquadrar Jesus diretamente nas categorias políticas contemporâneas de esquerda ou direita.

Jesus viveu no primeiro século.

Os conceitos modernos de “esquerda” e “direita” só surgiram muitos séculos depois, especialmente a partir da Revolução Francesa, no final do século XVIII.

Os termos passaram a ser utilizados porque, na Assembleia Nacional francesa, grupos políticos com posições diferentes se organizavam fisicamente em lados distintos.

Com o passar do tempo, esquerda e direita ganharam significados políticos, econômicos e sociais muito mais amplos.

Portanto, afirmar literalmente que Jesus pertencia à esquerda política utiliza uma categoria que simplesmente não existia durante sua vida.

A declaração de Lula deve ser compreendida como uma interpretação política dos ensinamentos de Cristo, e não como uma classificação histórica de Jesus.

Os Evangelhos realmente mostram Jesus defendendo os pobres

Isso não significa que a referência feita por Lula aos pobres tenha surgido sem qualquer fundamento bíblico.

Os Evangelhos apresentam diversas passagens nas quais Jesus demonstra preocupação com pobres, enfermos, marginalizados e pessoas socialmente desprezadas.

Em Mateus 25, por exemplo, Jesus relaciona o cuidado com pessoas necessitadas ao próprio serviço prestado a Ele.

Em Lucas 4, ao ler o livro do profeta Isaías, Jesus anuncia boas-novas aos pobres e liberdade aos oprimidos.

Também existem numerosas passagens criticando a avareza, a hipocrisia, a exploração e o apego excessivo às riquezas.

Esses ensinamentos são centrais para diferentes tradições cristãs.

Mas reduzir os ensinamentos de Jesus a uma ideologia moderna é controverso

É justamente nesse ponto que surge a controvérsia.

Uma coisa é reconhecer que os Evangelhos apresentam Jesus defendendo pobres e necessitados.

Outra é concluir que isso automaticamente faria dele integrante de uma corrente política surgida cerca de 1.700 anos depois.

Ao longo da história, cristãos de diferentes posições políticas reivindicaram princípios bíblicos para defender ideias conservadoras, progressistas, liberais e sociais.

Há também ensinamentos cristãos relacionados à responsabilidade individual, propriedade, família, autoridade, caridade voluntária, comportamento moral e relacionamento entre indivíduo e Estado que recebem interpretações distintas conforme a tradição teológica.

Por essa razão, identificar Jesus integralmente com uma ideologia partidária contemporânea é uma interpretação política e religiosa, não um consenso histórico.

E foram “os ricos” que mandaram crucificar Jesus?

Essa parte do discurso também merece contexto.

Lula afirmou que Jesus teria sido crucificado porque defendia pobres, doentes e necessitados e que “os ricos da época” teriam determinado sua morte.

A narrativa histórica e bíblica da crucificação é mais complexa.

Os Evangelhos descrevem conflitos entre Jesus e determinadas autoridades religiosas judaicas da época, especialmente relacionados à sua autoridade, seus ensinamentos e às acusações apresentadas contra ele.

A execução por crucificação, entretanto, foi realizada sob autoridade romana.

Pôncio Pilatos, governador romano da Judeia, ocupa papel central nos relatos da condenação.

Assim, resumir o episódio como simplesmente “os ricos mandaram matar Jesus porque ele defendia os pobres” corresponde à interpretação apresentada por Lula no discurso, mas não contempla toda a complexidade histórica e religiosa da crucificação.

Lula também atacou Bolsonaro usando religião

Jesus não foi a única referência religiosa feita pelo presidente naquele comício.

Lula também atacou diretamente o então principal adversário político de seu campo, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ao comentar a eleição presidencial de 2018, Lula acusou Bolsonaro de ter explorado a religião para conquistar votos entre os evangélicos.

O presidente afirmou que Bolsonaro teria “inventado” ser evangélico e chegou a declarar que o ex-presidente não acreditaria em Deus.

A afirmação sobre a fé pessoal de Bolsonaro representa uma avaliação política feita por Lula. Bolsonaro se identifica publicamente como cristão e mantém há anos forte relação política com segmentos evangélicos.

Bolsonaro foi batizado no Rio Jordão

Embora tenha origem católica, Bolsonaro foi batizado nas águas do Rio Jordão, em Israel, em 2016, pelo pastor Everaldo Pereira, então ligado à Assembleia de Deus.

Durante sua trajetória política, Bolsonaro aproximou-se fortemente de igrejas e lideranças evangélicas.

Essa aproximação tornou o eleitorado evangélico uma das bases mais importantes de suas campanhas presidenciais.

Por isso, a afirmação de Lula de que Bolsonaro teria simplesmente “inventado” ser evangélico deve ser apresentada como acusação política do presidente, e não como fato comprovado sobre a fé pessoal do ex-presidente.

Discurso ocorreu em plena disputa eleitoral

O contexto eleitoral ajuda a explicar o tom da declaração.

Camaçari enfrentava uma das disputas municipais mais apertadas da Bahia.

Luiz Caetano havia terminado o primeiro turno com 77.926 votos, equivalentes a 49,52% dos votos válidos.

Flávio Matos, do União Brasil, havia recebido 77.367 votos, ou 49,17%.

A diferença entre os dois foi de apenas 559 votos.

A presença de Lula no município fazia parte da estratégia para impulsionar o candidato petista no segundo turno.

Aproximação de Lula com evangélicos

O discurso também aconteceu em um momento em que Lula buscava ampliar sua aproximação com segmentos evangélicos.

Apenas três dias antes do comício, o presidente havia participado de um encontro com políticos evangélicos no Palácio do Planalto.

Na ocasião, Lula sancionou a criação do Dia Nacional da Música Gospel, celebrado em 9 de junho.

Durante o encontro, o presidente recebeu uma bênção de políticos e lideranças religiosas e participou de momentos com músicas cristãs.

A sequência dos acontecimentos colocou a religião no centro da estratégia de comunicação política do presidente naquele período.

Uma declaração antiga que voltou ao debate

Como acontece frequentemente nas redes sociais, vídeos antigos voltam a circular sem que a data original esteja destacada.

Por isso, quem encontra atualmente o trecho de Lula dizendo que Jesus foi “de esquerda” pode ter a impressão de que se trata de uma declaração recente.

Não é.

A fala ocorreu em outubro de 2024.

O vídeo e a declaração são autênticos, mas devem ser apresentados com sua data e contexto eleitoral originais.

Fala mistura religião, história e política

A declaração de Lula é verdadeira e sua justificativa também está registrada: ele associou Jesus à esquerda principalmente por sua defesa dos pobres, doentes e necessitados.

O ponto controverso está na interpretação.

Jesus viveu muitos séculos antes do nascimento das categorias políticas modernas de esquerda e direita. Por isso, classificá-lo diretamente dentro de uma dessas correntes representa uma leitura contemporânea de seus ensinamentos.

Ao mesmo tempo, a preocupação de Cristo com pobres e marginalizados está amplamente registrada nos Evangelhos e ocupa posição importante dentro do cristianismo.

É justamente essa combinação que explica por que a frase continua provocando discussão mesmo anos depois de ter sido pronunciada.

A questão deixa de ser apenas o que Jesus ensinou e passa a envolver outra pergunta: até que ponto figuras religiosas de dois mil anos atrás podem ser apropriadas pelas divisões partidárias do mundo atual?


Fontes

UOL/Estadão, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, Poder360, Metrópoles e registros em vídeo do comício realizado em Camaçari.

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