“Se arrependimento matasse”: Marco Aurélio diz que se arrepende de ter apoiado Moraes para o STF
Marco Aurélio Mello afirmou que se arrepende de ter apoiado Alexandre de Moraes para o STF em 2017. O ministro aposentado classificou as revelações recentes como “seríssimas”, disse que Moraes “vem errando a mão” e defendeu a atuação de André Mendonça.
O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello fez uma das mais contundentes críticas públicas a Alexandre de Moraes desde o início da crise provocada pelas revelações do caso Banco Master. Em entrevista à CNN Brasil neste sábado (5), o ex-magistrado afirmou que se arrepende de ter apoiado a indicação de Moraes à Suprema Corte em 2017.
Marco Aurélio relembrou que, após a morte do ministro Teori Zavascki, chegou a defender publicamente o nome de Moraes para ocupar a cadeira que ficaria vaga no tribunal.
Nove anos depois, diante dos acontecimentos recentes, sua avaliação mudou.
“Se arrependimento matasse, eu não estaria aqui hoje conversando com vocês.”
A declaração ocorre no momento em que Alexandre de Moraes enfrenta forte pressão após a divulgação de informações encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
Marco Aurélio: fatos são “seríssimos”
Ao explicar o arrependimento, Marco Aurélio lembrou as credenciais que fizeram com que enxergasse Moraes como um nome adequado para o Supremo em 2017.
Na época, Moraes já havia sido professor universitário, integrante do Ministério Público, secretário de Segurança Pública de São Paulo e ministro da Justiça.
Marco Aurélio considerava que essa trajetória o credenciava para a vaga.
Agora, entretanto, o ex-ministro afirma enxergar a situação de maneira diferente.
“Os fatos que vieram à balha são seríssimos.”
Marco Aurélio também fez uma avaliação direta sobre a atuação do ministro nos últimos anos.
“Ele vem errando a mão e isso é muito ruim.”
O que aconteceu para Marco Aurélio mudar de opinião?
A declaração acontece depois da divulgação de informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal.
O material registra contatos, mensagens e encontros atribuídos a Vorcaro e Moraes ao longo dos últimos anos.
Segundo o relatório da PF, o primeiro contato teria sido intermediado ainda em 2023 pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que encaminhou a Vorcaro um número atribuído a Moraes.
O documento também mapeia encontros ocorridos entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025.
Entre eles aparece um jantar realizado em fevereiro de 2024, com a presença das esposas dos dois.
Outras mensagens analisadas pela PF registram Vorcaro relatando a interlocutores que estava ou iria se encontrar com Moraes.
A existência de contatos e encontros, por si só, não comprova a prática de crime ou favorecimento por parte do ministro.
As circunstâncias e o conteúdo dessas relações passaram, porém, a receber intenso escrutínio público e institucional.
Contrato do Banco Master com escritório da esposa também está no centro da discussão
A crise ganhou outra dimensão por causa da relação profissional existente entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, ligado à família de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
O contrato e os pagamentos realizados pelo banco ao escritório passaram a ser analisados no contexto das revelações envolvendo Vorcaro.
Mensagens encontradas pela Polícia Federal também fizeram referência aos pagamentos.
A existência do contrato não estabelece, isoladamente, qualquer irregularidade por parte de Moraes, de sua esposa ou dos integrantes do escritório.
Mas a combinação de contatos pessoais, encontros e relações profissionais passou a alimentar questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse e sobre a necessidade de esclarecimentos.
Marco Aurélio cobra explicações do Supremo
Para Marco Aurélio, o momento exige uma resposta institucional.
O ministro aposentado afirmou que o tribunal precisa prestar esclarecimentos à população diante da dimensão alcançada pela crise.
Segundo ele, a sociedade está “atônita e perplexa” com os acontecimentos recentes.
A avaliação do ex-ministro é de que a confiança pública no Judiciário também está em jogo.
Em outra entrevista concedida neste sábado ao SBT News, Marco Aurélio utilizou uma expressão ainda mais dura e classificou a situação vivida pelo Supremo como uma crise “suicida”.
Marco Aurélio fica do lado de André Mendonça
O ex-ministro também tomou posição na disputa que colocou André Mendonça e Alexandre de Moraes em lados opostos.
Para Marco Aurélio, Mendonça agiu corretamente ao se deparar com o relatório produzido pela Polícia Federal e encaminhar as informações à Procuradoria-Geral da República.
“O ministro André Mendonça se defrontou com um relatório da PF e procedeu como deveria, encaminhando à PGR.”
Marco Aurélio afirmou ainda enxergar uma “inversão de valores” na reação à conduta de Mendonça.
Mendonça retirou sigilo e crise explodiu
André Mendonça tornou público o relatório da Polícia Federal que continha informações sobre as comunicações relacionadas a Vorcaro e Moraes.
A decisão provocou forte reação dentro do Supremo.
Moraes apresentou questionamentos contra a atuação de Mendonça, apontando possíveis irregularidades na condução das diligências.
Mendonça rejeita a acusação de direcionamento político e sustenta que suas decisões seguiram critérios técnicos.
A disputa chegou ao presidente do STF, Edson Fachin, e à Procuradoria-Geral da República.
Marco Aurélio também critica pedido de nulidade
Outro ponto abordado pelo ministro aposentado foi a tentativa de anular atos relacionados ao relatório da Polícia Federal.
A Procuradoria-Geral da República questionou procedimentos adotados por Mendonça e pediu a nulidade de atos relacionados à produção e utilização do material.
Marco Aurélio discordou dessa saída.
Na avaliação do ex-ministro, simplesmente declarar a nulidade do procedimento não seria compatível com aquilo que considera adequado do ponto de vista processual.
Para ele, as informações precisam ser devidamente esclarecidas.
Do apoio em 2017 ao arrependimento em 2026
A declaração chama atenção principalmente pela história entre os dois ministros.
Alexandre de Moraes foi indicado ao STF pelo então presidente Michel Temer em fevereiro de 2017, depois da morte de Teori Zavascki em um acidente aéreo.
Marco Aurélio, que ainda integrava o Supremo, defendeu publicamente o nome.
Naquele momento, destacou justamente a experiência profissional de Moraes.
O Senado aprovou a indicação, e Moraes tomou posse no STF em março de 2017.
Marco Aurélio permaneceu na Corte até sua aposentadoria, em julho de 2021.
Agora, nove anos depois da indicação que apoiou, ele afirma que faria uma avaliação diferente.
“Se arrependimento matasse...”
A frase escolhida por Marco Aurélio sintetizou sua posição sobre o antigo apoio.
Não foi uma crítica feita por um adversário político tradicional de Moraes, mas por um ex-integrante do próprio Supremo que havia considerado o então ministro da Justiça preparado para ocupar uma cadeira na Corte.
Marco Aurélio não afirmou que as revelações recentes comprovam crime de Moraes. Sua manifestação foi uma avaliação pessoal e institucional sobre a gravidade dos fatos que vieram a público e sobre a maneira como o atual ministro vem exercendo suas funções.
Para o ex-ministro, porém, a situação chegou a um ponto em que o Supremo não pode simplesmente ignorar os questionamentos.
Depois de defender Moraes para a Corte em 2017, Marco Aurélio agora cobra explicações, diz que o ministro “vem errando a mão” e resume sua mudança de posição em uma frase: se arrependimento matasse, ele já não estaria aqui para contar a história.
Fontes
CNN Brasil; SBT News; declarações públicas de Marco Aurélio Mello; informações públicas do Supremo Tribunal Federal e da Polícia Federal sobre os recentes desdobramentos do caso Banco Master.