Adolescente tem seis dedos decepados por ordem atribuída ao CV; caso repercute em meio ao debate sobre “terrorismo”
Adolescente de 17 anos teve seis dedos decepados em Feira de Santana em crime atribuído pela investigação a integrantes do CV. O caso repercute enquanto Lula rejeita classificar facções como organizações terroristas.
Um crime de extrema violência registrado em Feira de Santana, na Bahia, voltou a colocar em evidência os métodos utilizados por facções criminosas no Brasil.
Um adolescente de 17 anos foi sequestrado após sair da escola e teve três dedos de cada mão decepados com golpes de facão.
Segundo a investigação da Polícia Civil, o ataque estaria relacionado à disputa entre o Comando Vermelho (CV) e o Bonde do Maluco (BDM).
Fotos no celular teriam motivado a tortura
De acordo com as investigações, o adolescente foi abordado após deixar uma escola no bairro Campo Limpo e levado para uma região de mata.
No local, os criminosos o obrigaram a desbloquear o celular.
Os suspeitos encontraram fotografias nas quais o jovem aparecia fazendo um gesto com três dedos levantados, conhecido como “Tudo 3” e associado pelas autoridades ao Bonde do Maluco, grupo rival do Comando Vermelho na região.
Segundo o delegado Gustavo Coutinho, o adolescente também teria admitido atuar como informante do BDM.
Ordem teria sido dada por videochamada
A investigação aponta que os sequestradores fizeram uma chamada de vídeo com uma liderança criminosa antes da mutilação.
Segundo a Polícia Civil, a ordem para decepar os dedos teria partido dessa liderança, que acompanhou parte da ação remotamente.
O crime também foi registrado em vídeos e fotografias, que teriam sido enviados posteriormente aos familiares da vítima.
O adolescente foi inicialmente encaminhado ao Hospital Geral Clériston Andrade e posteriormente transferido para Salvador.
A mãe chegou a transportar os dedos decepados em uma tentativa de possibilitar eventual reimplante.
Dois suspeitos estão presos
Dois homens apontados como participantes do sequestro e da tortura foram presos pela Polícia Civil.
A Justiça da Bahia posteriormente converteu as prisões em flagrante em prisões preventivas.
Com os suspeitos, a polícia apreendeu uma pistola, um revólver, munições, carregador e celulares.
Além da investigação pela tortura do adolescente, os presos são investigados por atuação em organização criminosa e outros delitos. Um deles também confessou, segundo a polícia, participação em um homicídio ocorrido no mesmo bairro.
Crime ocorre em meio a debate sobre classificação das facções
O episódio ganhou nova repercussão nas redes sociais por ocorrer praticamente no mesmo período em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas defendida pelo governo dos Estados Unidos.
Durante evento realizado no Rio de Janeiro em 18 de setembro, Lula declarou:
“Eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas, como diz o Trump.”
Na mesma manifestação, entretanto, Lula afirmou que o Estado precisa derrotar o crime organizado.
O presidente também reconheceu a situação de violência vivida por moradores de áreas controladas por grupos criminosos.
Classificação como terrorismo é uma discussão jurídica separada
Embora o caso de Feira de Santana esteja sendo usado nas redes sociais como argumento no debate sobre terrorismo, os dois assuntos precisam ser juridicamente separados.
A brutalidade de um crime não determina automaticamente se uma organização se enquadra juridicamente como terrorista.
No Brasil, terrorismo possui definição própria estabelecida pela legislação. Organizações como PCC e Comando Vermelho são tratadas pelas autoridades brasileiras como organizações criminosas, enquanto o governo dos Estados Unidos passou a adotar uma classificação diferente para essas facções.
A posição manifestada por Lula é contrária à classificação defendida pelo governo de Donald Trump, mas não significa oposição ao combate às organizações criminosas.
Um crime que mostra o poder de intimidação das facções
Independentemente da discussão jurídica sobre a palavra “terrorismo”, o episódio de Feira de Santana demonstra o grau de violência e intimidação atribuído pela investigação a grupos criminosos que disputam territórios.
Segundo a polícia, um simples gesto encontrado em fotografias no celular da vítima teria sido interpretado como demonstração de ligação com uma facção rival e desencadeado uma sessão de tortura.
A apuração agora busca esclarecer toda a cadeia de comando do crime e localizar outros envolvidos, incluindo a liderança apontada como responsável pela ordem de mutilação.
O debate político sobre como PCC, CV e outras facções devem ser juridicamente classificados continuará separado da investigação criminal. Mas o caso da Bahia expõe, de maneira concreta, a violência empregada na disputa entre esses grupos.
Fontes: Polícia Civil da Bahia; UOL; Metrópoles; Correio da Bahia; Folha de S.Paulo.