Ameaças, perseguição e duas mortes: entenda o caso das meninas assassinadas pelo próprio pai em São Paulo
Ísis Helena, de 3 anos, e Lais Heloisa, de 5, foram encontradas mortas dentro do carro do pai na zona sul de São Paulo. Segundo o boletim de ocorrência, Breno de Souza Castro, de 24 anos, não aceitava a separação da mãe das crianças e teria feito ameaças pouco antes do crime. Ele procurou a polícia na manhã de domingo (9) e confessou as mortes. A Justiça converteu sua prisão em preventiva, e a investigação analisa a possibilidade de enquadramento no crime de vicaricídio, criado em abril de 2026.
Crime ocorrido no fim de semana do Dia dos Pais expôs um histórico de ameaças após a separação. Pai confessou as mortes, teve a prisão convertida em preventiva e caso pode ser enquadrado na nova lei do vicaricídio.
Um crime que chocou São Paulo no fim de semana do Dia dos Pais começou, segundo o relato prestado pela mãe das vítimas à polícia, meses antes das mortes.
Ísis Helena Alves de Souza, de 3 anos, e Lais Heloisa Alves de Souza, de 5, foram encontradas sem vida dentro do carro do próprio pai, Breno de Souza Castro, de 24 anos, na zona sul da capital paulista.
Breno procurou uma delegacia na manhã de domingo (9) e confessou ter matado as duas filhas. Desde então, novas informações reveladas pelo boletim de ocorrência e pelas investigações passaram a mostrar uma sequência de separação conturbada, ameaças e perseguição à mãe das crianças.
Segundo o boletim de ocorrência, a polícia trabalha com a hipótese de que as crianças tenham sido mortas para provocar sofrimento à ex-companheira do investigado. Essa circunstância pode fazer o caso ser analisado sob a nova legislação que tipificou o vicaricídio no Brasil.
Relacionamento durou cerca de oito anos
A mãe das meninas, Jennifer Nayra Alves, de 20 anos, contou à polícia que manteve um relacionamento com Breno durante aproximadamente oito anos.
O casal teve duas filhas e se separou cerca de cinco meses antes do crime, em março de 2026.
Segundo Jennifer, o relacionamento terminou depois de episódios de agressão física e traições.
Ela afirmou ainda que Breno não aceitava o término e passou a persegui-la e ameaçá-la depois da separação.
Família tentava evitar encontros entre os dois
Por causa da relação conturbada, a entrega das crianças para os períodos de convivência com o pai teria passado a ocorrer de maneira indireta.
Segundo o relato registrado pela polícia, a avó paterna buscava as meninas em um ponto combinado para evitar encontros entre Jennifer e Breno.
As crianças costumavam passar parte dos fins de semana com integrantes da família paterna.
O fim de semana começou normalmente
Na sexta-feira (7), as meninas foram novamente ficar com a família do pai.
No sábado (8), Breno deixou a residência com as duas crianças.
Ele informou que levaria as filhas para um passeio no Museu do Ipiranga.
Por volta das 15h30, porém, uma sequência de mensagens começou a preocupar a família.
Foto publicada pela mãe teria provocado ameaça
Na tarde de sábado, Jennifer publicou em uma rede social uma fotografia ao lado de amigas.
Segundo o boletim de ocorrência, Breno viu a publicação e entrou em contato com a ex-companheira.
Ele teria afirmado que aquela seria a última vez que ela veria as filhas e dito que a jovem descobriria o que aconteceria em seguida.
A declaração passou a ser considerada um elemento importante para a investigação sobre a possível motivação do crime.
As informações sobre as ameaças constam do relato da mãe registrado no boletim de ocorrência. O processo ainda será submetido à instrução judicial, quando as provas serão analisadas formalmente.
Crianças não voltaram para casa
Com o passar das horas, os familiares começaram a perceber que algo estava errado.
As meninas deveriam ter retornado, mas Breno não apareceu.
Por volta das 18h, a irmã dele começou a questioná-lo por mensagens sobre o paradeiro das sobrinhas.
Segundo o registro policial, Breno respondeu que ninguém mais veria as crianças.
A família avisou Jennifer, que iniciou uma busca pelos locais frequentados pelo ex-companheiro.
A Polícia Militar também foi acionada.
Mãe passou a noite procurando pelas filhas
Enquanto Breno permanecia desaparecido com as meninas, Jennifer percorreu diferentes locais em busca das crianças.
Ela também entrou em contato com familiares e autoridades durante a madrugada.
A busca continuou até a manhã de domingo.
Jennifer ainda não sabia que, naquele momento, o próprio pai das crianças estava prestes a procurar a polícia.
Pai entrou em delegacia e confessou o crime
Por volta das 6h de domingo (9), Breno compareceu espontaneamente ao 48º Distrito Policial, na Cidade Dutra.
De acordo com o boletim, ele apresentava sinais de embriaguez.
Aos policiais, afirmou que havia matado as duas filhas por asfixia e indicou onde havia deixado o veículo com os corpos.
A equipe policial seguiu até a Rua Luiz Supertti, na região de Cidade Dutra.
Policiais encontraram as meninas dentro do carro
O Renault Clio utilizado por Breno estava estacionado e trancado.
Como ele não estava com as chaves, os policiais precisaram quebrar um dos vidros traseiros para entrar no veículo.
As duas meninas foram encontradas dentro do automóvel.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e confirmou as mortes ainda no local.
Imagens mostram abandono do veículo
Câmeras de segurança registraram o momento em que Breno estacionou e abandonou o carro.
Nas imagens divulgadas pela imprensa, ele aparece abrindo o porta-malas, pegando algumas peças de roupa, vestindo-se e deixando o veículo na rua.
As gravações passaram a integrar o conjunto de elementos analisados na investigação.
Polícia avalia possível vicaricídio
O boletim de ocorrência menciona que a conduta pode, em tese, se enquadrar como vicaricídio.
O termo passou a integrar o Código Penal em abril de 2026, com a entrada em vigor da Lei nº 15.384.
A legislação define o vicaricídio como o assassinato de descendente, ascendente, dependente, enteado ou pessoa sob responsabilidade direta de uma mulher com a finalidade de causar sofrimento, punição ou controle sobre ela, dentro de um contexto de violência doméstica ou familiar.
O vicaricídio passou a ser considerado crime hediondo e pode resultar em pena de 20 a 40 anos de prisão, além de multa.
A definição jurídica definitiva aplicável ao caso caberá às autoridades responsáveis pela investigação, ao Ministério Público e posteriormente à Justiça.
Ocorrência foi registrada como homicídio qualificado
Apesar da menção ao vicaricídio no boletim, o registro inicial foi feito como duplo homicídio qualificado e violência doméstica.
Entre as qualificadoras mencionadas estão:
- emprego de asfixia ou meio cruel;
- recurso que teria dificultado a defesa das vítimas;
- crime cometido contra menores de 14 anos;
- circunstâncias relacionadas à motivação apontada pela investigação.
O caso também foi registrado no contexto da violência doméstica prevista pela Lei Maria da Penha.
Suspeito já havia sido preso anteriormente
Outra informação revelada após o crime mostra que Breno já possuía passagem pelo sistema prisional.
Segundo registros divulgados pela imprensa, ele havia sido preso por roubo em junho de 2023 e chegou a cumprir pena na Penitenciária de São Vicente II, no litoral paulista.
Posteriormente, deixou a prisão após progressão relacionada ao cumprimento da pena e ao comportamento no sistema penitenciário.
Esse processo anterior não possui relação direta com o atual duplo homicídio, mas passou a integrar o histórico divulgado sobre o investigado.
Justiça converteu prisão em preventiva
Breno foi inicialmente preso em flagrante.
Na segunda-feira (10), ele passou por audiência de custódia.
A Justiça de São Paulo decidiu converter a prisão em preventiva, permitindo que permaneça detido enquanto o processo avança.
Segundo os documentos do caso, o pedido considerou a gravidade dos fatos, a periculosidade atribuída ao investigado e a necessidade de proteção da mãe das crianças.
Investigado é levado para CDP de Guarulhos
Após a decisão judicial, Breno foi transferido para o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos II, na Grande São Paulo.
A Secretaria da Administração Penitenciária confirmou nesta terça-feira (11) que ele permanece recolhido na unidade.
Segundo informações divulgadas, ele foi colocado em uma área separada por questões de segurança relacionadas à repercussão do caso.
Mãe se despediu das meninas
Depois da confirmação das mortes, Jennifer publicou mensagens nas redes sociais em homenagem às filhas.
Em uma das manifestações, pediu justiça e falou sobre a dificuldade de enfrentar a perda das duas crianças.
Ísis Helena e Lais Heloisa foram veladas na noite de segunda-feira (10), na região da Vila Prudente.
O sepultamento ocorreu nesta terça-feira (11), no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina, zona leste da capital.
Um detalhe jurídico muda a dimensão do caso
A possível aplicação da recém-criada legislação sobre violência vicária faz com que o processo possa se tornar um dos primeiros casos de grande repercussão nacional analisados após a criação do novo tipo penal.
A lei nasceu justamente para situações em que filhos ou pessoas próximas são atacados como uma forma de atingir emocionalmente uma mulher.
No caso das duas meninas, caberá à investigação demonstrar se a intenção atribuída ao pai — punir ou causar sofrimento à ex-companheira — pode ser comprovada pelas mensagens, depoimentos, imagens e demais elementos reunidos.
Entenda o caso em ordem cronológica
Período O que aconteceu Março de 2026 Jennifer e Breno encerram o relacionamento. Segundo ela, o ex passa a persegui-la e ameaçá-la. 7 de agosto As meninas vão passar o fim de semana com a família paterna. 8 de agosto Breno sai com as duas filhas dizendo que as levaria para um passeio. Tarde de 8 de agosto Após ver uma foto da ex-companheira com amigas, Breno teria enviado ameaças dizendo que ela não veria mais as filhas. Noite de 8 de agosto As crianças não retornam e familiares iniciam buscas. A Polícia Militar é acionada. 6h de 9 de agosto Breno procura o 48º DP e confessa as mortes. 9 de agosto Policiais encontram Ísis e Lais dentro do carro estacionado na Cidade Dutra. 10 de agosto A Justiça converte a prisão em flagrante em prisão preventiva. 11 de agosto As crianças são sepultadas e Breno permanece preso no CDP de Guarulhos II.O que acontece agora
A Polícia Civil seguirá reunindo provas e aguardando resultados de exames periciais.
O Ministério Público deverá analisar o inquérito e definir a denúncia que será apresentada à Justiça.
Também deverá ser definida a tipificação penal final, incluindo a possibilidade de utilização do novo crime de vicaricídio.
Até o momento, a imprensa não localizou advogado constituído que tenha apresentado publicamente uma versão da defesa de Breno sobre o caso.
Fontes
CNN Brasil, Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, Tribunal de Justiça de São Paulo, Metrópoles, UOL e Senado Federal.