Maduro fica fora das negociações: governo venezuelano deixa de exigir libertação do ex-presidente preso nos EUA
O governo venezuelano deixou de exigir a libertação de Nicolás Maduro nas recentes negociações com a oposição. Não houve anúncio formal de abandono, mas a mudança representa uma ruptura importante com a postura adotada após sua captura
Após meses defendendo a libertação de Nicolás Maduro, representantes do governo venezuelano deixaram de apresentar o tema nas recentes conversas com a oposição. Mudança chama atenção enquanto Delcy Rodríguez negocia o futuro político do país.
Uma mudança significativa nas negociações políticas da Venezuela colocou novamente Nicolás Maduro no centro das atenções — desta vez, justamente por sua ausência.
Representantes do governo interino venezuelano, comandado por Delcy Rodríguez, deixaram de exigir a libertação de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, durante recentes negociações com integrantes da oposição.
A informação foi revelada pelo Financial Times, que ouviu pessoas envolvidas nas conversas.
O episódio representa uma mudança relevante em relação à posição adotada pelo governo venezuelano imediatamente após a captura de Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro de 2026.
Maduro simplesmente desapareceu da mesa de negociação
Segundo a apuração publicada pelo Financial Times, representantes do governo e da oposição participaram de cinco sessões de negociação realizadas ao longo de quase duas semanas.
As conversas abordaram diferentes temas relacionados ao futuro político e institucional da Venezuela.
Mas uma reivindicação que anteriormente ocupava posição central deixou de aparecer: a libertação de Nicolás Maduro.
Uma fonte da oposição envolvida nas negociações afirmou ao jornal britânico que Maduro e Cilia Flores simplesmente não estavam sendo tratados nas conversas.
A ausência chamou atenção porque Delcy Rodríguez foi vice-presidente de Maduro e, imediatamente após sua captura, condenou a operação americana e defendeu publicamente sua libertação.
Não houve anúncio oficial de “abandono”
Apesar da repercussão nas redes sociais, é necessário fazer uma distinção importante.
Não há confirmação de que Delcy Rodríguez tenha realizado uma coletiva anunciando oficialmente que o governo “abandonou” Nicolás Maduro.
Também não há, até o momento, declaração formal dizendo que Caracas desistiu definitivamente de buscar sua libertação.
O fato confirmado pelas fontes internacionais é outro: a libertação de Maduro deixou de ser apresentada como condição nas negociações recentes entre governo e oposição.
Politicamente, a mudança é significativa, mas não deve ser confundida com uma declaração oficial de rompimento.
Maduro foi capturado em janeiro
A atual situação política venezuelana começou a mudar drasticamente em 3 de janeiro de 2026.
Nicolás Maduro foi capturado durante uma operação dos Estados Unidos realizada em Caracas e posteriormente levado para território americano.
Cilia Flores também foi detida.
A operação alterou completamente o equilíbrio de forças dentro da Venezuela e abriu caminho para uma nova configuração de poder.
Delcy Rodríguez, que ocupava a Vice-Presidência, passou a comandar interinamente o país.
Delcy inicialmente exigia a libertação de Maduro
Nos primeiros momentos após a operação americana, a postura de Delcy Rodríguez foi bastante diferente da observada atualmente.
Ela condenou a captura e defendeu publicamente que Maduro fosse libertado.
O discurso oficial venezuelano também apresentava o ex-presidente como vítima de uma ação considerada ilegítima pelo governo.
Nos meses seguintes, entretanto, a postura política começou gradualmente a mudar.
Maduro começou a desaparecer até da propaganda oficial
Outro sinal dessa transformação apareceu na própria comunicação política venezuelana.
Meses depois da captura, imagens, fotografias e referências a Maduro começaram a perder espaço em repartições e materiais associados ao governo.
A mudança chamou atenção porque durante anos sua imagem esteve diretamente ligada à propaganda estatal venezuelana.
Agora surge um movimento ainda mais significativo: seu nome deixou de aparecer como reivindicação prioritária nas negociações que discutem o futuro do país.
Delcy negocia com a oposição
Enquanto Maduro permanece preso nos Estados Unidos, Delcy Rodríguez tenta conduzir uma nova etapa política na Venezuela.
Representantes do governo iniciaram conversas com setores da oposição sobre reformas institucionais e uma possível reorganização política.
Entre os assuntos discutidos estão mudanças no sistema judicial, recuperação econômica, utilização de recursos internacionais e condições para futuros processos eleitorais.
As negociações acontecem em um cenário de forte influência dos Estados Unidos sobre os acontecimentos venezuelanos.
Washington acompanha de perto a transição
Os Estados Unidos tornaram-se peça central no novo cenário venezuelano.
Além da operação que resultou na captura de Maduro, Washington passou a exercer forte pressão sobre o processo político e econômico do país.
A Venezuela possui algumas das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, o que torna qualquer mudança em seu governo particularmente relevante para a geopolítica regional e para o mercado energético.
Ao mesmo tempo, o governo americano busca mudanças institucionais que permitam uma transição política mais ampla.
Presos políticos começam a ser libertados
Outro movimento importante ocorreu paralelamente às negociações.
Autoridades venezuelanas anunciaram novas libertações de pessoas consideradas presos políticos por organizações de direitos humanos e setores da oposição.
Em 14 de agosto, o governo anunciou a libertação de 131 pessoas.
Autoridades venezuelanas afirmam que mais de mil pessoas já teriam sido beneficiadas desde o início do processo de anistia.
Organizações independentes, entretanto, apresentam números diferentes e contestam parte dos dados divulgados oficialmente.
O contraste com o início do ano é evidente
Em janeiro, a libertação de Maduro era apresentada como uma das principais reivindicações do governo venezuelano.
Oito meses depois, representantes desse mesmo governo participam de negociações sobre o futuro da Venezuela sem colocar o retorno do ex-presidente como condição central.
Isso não prova, isoladamente, que Delcy Rodríguez tenha rompido definitivamente com Maduro.
Mas demonstra que a prioridade política do governo mudou de maneira considerável.
Delcy consolida espaço próprio no poder
A nova postura também levanta uma questão inevitável sobre o futuro de Delcy Rodríguez.
Durante anos, sua carreira esteve diretamente ligada ao chavismo e ao governo Maduro.
Agora, porém, ela ocupa o centro das decisões nacionais e negocia diretamente os rumos da Venezuela.
Quanto mais tempo Maduro permanece afastado e quanto mais o governo avança em negociações sem exigir seu retorno, maior tende a ser a autonomia política de Delcy.
Isso não significa que o chavismo tenha desaparecido.
Grande parte da estrutura política, administrativa e militar construída durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro continua existindo.
Mas o centro do poder mudou.
E o que acontecerá com Maduro?
Essa é uma das maiores incógnitas.
Maduro permanece sob custódia americana e sua situação depende dos procedimentos judiciais nos Estados Unidos.
A eventual libertação ou retorno à Venezuela não depende exclusivamente do governo de Delcy Rodríguez.
O fato de seu nome não aparecer nas negociações recentes indica, entretanto, que o futuro político venezuelano começa a ser discutido sem que sua volta ao poder seja colocada como condição.
De homem mais poderoso da Venezuela a ausente da negociação
Nicolás Maduro comandou a Venezuela por mais de uma década depois da morte de Hugo Chávez.
Controlou o Executivo, enfrentou sucessivas crises políticas, sanções internacionais, protestos e disputas eleitorais.
Durante anos, qualquer negociação sobre o futuro da Venezuela necessariamente passava por ele.
Em 2026, essa realidade mudou de maneira abrupta.
Maduro está preso nos Estados Unidos, Delcy Rodríguez ocupa o comando do governo e representantes venezuelanos negociam diretamente com a oposição.
Agora, pela primeira vez desde sua captura, surge um sinal particularmente forte da perda de influência do ex-presidente: sua própria libertação deixou de aparecer como exigência nas conversas que discutem o futuro do país.
Uma mudança política difícil de ignorar
Ainda é cedo para afirmar que Nicolás Maduro foi definitivamente abandonado por seus antigos aliados.
Também seria precipitado concluir que o chavismo chegou ao fim.
Mas a mudança de comportamento do governo venezuelano é objetiva.
De uma posição que exigia publicamente a libertação de Maduro, Caracas passou a negociar temas fundamentais para o futuro da Venezuela sem colocar o ex-presidente no centro das reivindicações.
Os próximos movimentos de Delcy Rodríguez mostrarão se esse silêncio é apenas uma estratégia de negociação ou se representa algo muito maior: o início definitivo de uma Venezuela politicamente pós-Maduro.
Fontes
Financial Times, Congressional Research Service dos Estados Unidos, AFP e veículos internacionais que acompanham as negociações políticas venezuelanas.