Mortes de yanomamis voltam ao debate e redes cobram artistas; dados mostram cenário mais complexo
Dados oficiais mostram 356 mortes de yanomamis em 2025, contra 347 em 2024 e 435 em 2023. A leve alta anual reacendeu cobranças nas redes a artistas que já fizeram campanhas pela causa.
O número de mortes entre indígenas yanomamis voltou a alimentar uma discussão política nas redes sociais, acompanhada de cobranças dirigidas a artistas e personalidades que participaram, nos últimos anos, de campanhas públicas em defesa dos povos indígenas.
Entre as frases que passaram a circular está a pergunta: “Cadê os globais?”, utilizada por internautas que afirmam não enxergar o mesmo nível de mobilização pública observado em períodos anteriores.
O debate ganhou força depois da divulgação de novos dados oficiais sobre a mortalidade na Terra Indígena Yanomami.
Mas os números exigem contexto.
O que dizem os dados oficiais
Segundo o Informe 09 da Missão Yanomami, publicado pelo Ministério da Saúde em julho de 2026, foram registrados:
- 435 óbitos em 2023;
- 347 óbitos em 2024;
- 356 óbitos em 2025.
Isso significa que houve um aumento de 9 mortes entre 2024 e 2025, equivalente a aproximadamente 2,6%.
Ao mesmo tempo, o total registrado em 2025 permaneceu 18,2% abaixo do número de 2023.
O Ministério da Saúde informa que os dados são preliminares e podem sofrer alterações conforme a consolidação dos registros.
Então as mortes aumentaram ou diminuíram?
As duas afirmações podem aparecer dependendo do período escolhido para comparação.
Se a comparação for entre 2024 e 2025, houve uma leve alta.
Se o parâmetro for 2023 e 2025, houve redução relevante.
Por isso, manchetes que simplesmente dizem que “as mortes aumentaram” sem informar o período comparado podem produzir uma impressão incompleta.
Primeiro semestre de 2025 teve queda
Outro dado ajuda a entender o cenário.
Segundo informações oficiais divulgadas pela Funai e pelo Ministério da Saúde, o primeiro semestre de 2025 registrou uma redução de 33% nos óbitos em comparação com o mesmo período de 2024.
Também foram relatadas quedas em mortes associadas a doenças respiratórias, malária e desnutrição.
Esse desempenho, porém, não impediu que o total do ano de 2025 terminasse ligeiramente acima do registrado em 2024.
Crise Yanomami não terminou
A redução em alguns indicadores não significa que os problemas estejam resolvidos.
A Terra Indígena Yanomami continua enfrentando desafios relacionados a doenças infecciosas, desnutrição, dificuldade de acesso a atendimento médico, violência e consequências da presença do garimpo ilegal.
Em 2026, por exemplo, o Ministério da Saúde precisou mobilizar equipes para enfrentar casos de coqueluche no território, com centenas de atendimentos realizados.
As autoridades também continuam acompanhando malária, síndromes respiratórias e déficit nutricional.
Por que artistas voltaram a ser cobrados?
Durante a crise humanitária que ganhou grande repercussão nacional em 2023, artistas, apresentadores, músicos e outras personalidades participaram de campanhas, manifestações e publicações em defesa dos yanomamis.
Parte dessas manifestações também continha críticas diretas ao governo anterior.
Com a divulgação de novos números durante o atual governo, usuários das redes passaram a comparar a intensidade das manifestações de hoje com aquelas observadas no passado.
É nesse contexto que surgiu novamente a pergunta “Cadê os globais?”.
É possível afirmar que os artistas estão em silêncio?
Não de forma generalizada.
Até o momento, não existe um levantamento confiável que permita dizer quantas personalidades que se manifestaram no passado deixaram de comentar agora.
Há artistas que continuam envolvidos em pautas indígenas e ambientais, enquanto outros não fizeram manifestações públicas recentes sobre esses números específicos.
Portanto, a ideia de um “silêncio dos artistas” deve ser tratada como uma crítica política feita nas redes sociais, e não como uma conclusão factual demonstrada por dados.
Debate político acabou dominando a discussão
A situação dos yanomamis tornou-se, nos últimos anos, também um tema de disputa política.
Durante o governo Bolsonaro, opositores atribuíram parte da crise ao avanço do garimpo ilegal, à redução da assistência e às dificuldades de atuação das equipes de saúde.
O atual governo sustenta que ampliou a presença do Estado, reabriu polos de saúde, aumentou o número de profissionais e intensificou operações contra o garimpo.
Críticos do governo Lula, por outro lado, apontam que a permanência de centenas de mortes anuais mostra que a crise continua e cobram o mesmo grau de pressão pública direcionado anteriormente ao governo federal.
Comparação entre governos precisa considerar subnotificação
Há ainda uma dificuldade metodológica importante.
O Ministério da Saúde afirma que, entre 2019 e 2022, houve deterioração da capacidade de atendimento e registro no território, o que teria provocado subnotificação de doenças e óbitos.
Isso significa que comparar números brutos entre diferentes anos sem considerar a qualidade dos registros pode gerar conclusões imprecisas.
Quanto maior a presença das equipes de saúde e a capacidade de registrar ocorrências, maior também pode ser a identificação de mortes que antes não entravam corretamente nas bases oficiais.
O que os números mostram de maneira objetiva
Hoje, é possível afirmar com segurança que:
- 2023 registrou 435 mortes entre yanomamis;
- 2024 registrou 347;
- 2025 registrou 356;
- houve leve aumento de 2024 para 2025;
- o total de 2025 ficou abaixo de 2023;
- a situação sanitária continua exigindo atenção permanente;
- as cobranças a artistas existem nas redes, mas não há base para afirmar de forma geral que todos deixaram de se manifestar.
Uma crise que não deveria depender de quem está no poder
A discussão política sobre responsabilidade e cobrança pública é legítima, especialmente quando personalidades usam sua visibilidade para pressionar governos.
Mas a situação dos yanomamis não deixa de ser grave porque os números melhoraram em determinado período, nem se transforma automaticamente em fracasso total porque houve aumento em um ano específico.
O dado mais importante é que centenas de indígenas continuam morrendo anualmente e que o território permanece vulnerável a doenças, violência e problemas sociais.
Ao mesmo tempo, a cobrança feita nas redes levanta uma questão política difícil de ignorar: se artistas e formadores de opinião utilizam sua influência para pressionar um governo diante de uma crise humanitária, a sociedade tem o direito de perguntar se o mesmo padrão de cobrança será mantido quando o governo muda.
Fontes
Ministério da Saúde, Informe 09 da Missão Yanomami, Secretaria Especial de Saúde Indígena e Fundação Nacional dos Povos Indígenas.