Quase dizimados por epidemias, Paiter Suruí resistiram e lutaram pela sobrevivência em Rondônia nos anos 1970
Após o contato oficial em 1969, os Paiter Suruí enfrentaram epidemias devastadoras e conflitos territoriais em Rondônia. A resistência do povo marcou a década de 1970 e contribuiu para o reconhecimento da Terra Indígena Sete de Setembro, homologada em 1983.
A década de 1970 marcou um dos períodos mais difíceis da história do povo indígena Paiter Suruí, que vive na região de Cacoal, em Rondônia, e em áreas do atual estado de Mato Grosso. Após o contato oficial com representantes do governo brasileiro, em 1969, a população enfrentou epidemias devastadoras, conflitos pela posse da terra e profundas transformações em seu modo de vida.
Em meio ao avanço da colonização e à abertura de novas frentes de ocupação na Amazônia, os Paiter Suruí viveram uma crise que ameaçou sua continuidade como povo. Apesar das perdas humanas e territoriais, conseguiram resistir e preservar sua identidade cultural.
O contato oficial de 1969 e o início de uma crise
O contato oficial dos Paiter Suruí com a Fundação Nacional do Índio (Funai) ocorreu em 1969, por intermédio dos sertanistas Francisco Meirelles e Apoena Meirelles, na região do posto Sete de Setembro.
Embora já existissem registros e relatos de encontros anteriores com não indígenas, aquele momento marcou uma nova fase de aproximação com a sociedade envolvente.
O contato aconteceu durante um período de intensificação da ocupação territorial de Rondônia, impulsionada pela expansão agrícola, pela migração de famílias de outras regiões do Brasil e pela infraestrutura rodoviária.
A BR-364, importante ligação entre Mato Grosso e Porto Velho, desempenhou papel central nesse processo de integração econômica e crescimento populacional.
Entretanto, a expansão da ocupação também aumentou a pressão sobre territórios tradicionalmente habitados por povos indígenas.
Epidemias provocaram perdas devastadoras
Uma das consequências mais graves do contato foi a disseminação de doenças infecciosas, especialmente o sarampo, diante das quais a população indígena apresentava grande vulnerabilidade.
Segundo registros históricos reunidos pelo Instituto Socioambiental, uma epidemia de sarampo provocou a morte de aproximadamente 300 indígenas Paiter Suruí.
Estudos acadêmicos apresentam diferentes estimativas para a redução populacional daquele período. Uma pesquisa sobre a história do povo aponta que a população, estimada em cerca de 4 mil pessoas em 1969, teria caído para aproximadamente 600 entre 1970 e 1975.
Esses números são estimativas históricas e variam conforme as fontes, mas demonstram a dimensão da tragédia enfrentada pela comunidade.
Além do sarampo, doenças como gripe e tuberculose também aparecem em estudos sobre os impactos sanitários do contato.
Busca por atendimento médico e mudanças nas aldeias
Em 1973, diante da epidemia de sarampo, grupos Paiter Suruí passaram a permanecer de maneira mais estável nas proximidades do posto da Funai em busca de assistência médica.
A necessidade de tratamento e apoio alterou profundamente a organização das comunidades, que até então mantinham formas próprias de ocupação e deslocamento pelo território.
A região de Riozinho, em Cacoal, aparece em estudos históricos e linguísticos como um dos espaços relacionados às transformações vividas pelo povo Suruí durante o avanço da ocupação não indígena.
Essas mudanças afetaram a organização das aldeias, as relações sociais e a transmissão de práticas culturais tradicionais.
Conflitos pela terra e resistência indígena
Enquanto enfrentavam as consequências das epidemias, os Paiter Suruí também precisaram lidar com disputas territoriais decorrentes da chegada de colonos e da exploração econômica da região.
Estudos históricos registram conflitos com ocupantes não indígenas e pressões sobre áreas tradicionalmente utilizadas pelas comunidades.
A defesa do território tornou-se uma questão fundamental para a sobrevivência do povo, uma vez que a floresta e seus recursos estavam diretamente ligados à alimentação, à organização social e à continuidade de suas tradições.
A resistência indígena envolveu a permanência nas áreas tradicionais, a atuação de lideranças e a busca pelo reconhecimento legal de suas terras.
Demarcação começou em 1976, mas reconhecimento definitivo veio em 1983
A Terra Indígena Sete de Setembro passou por um processo de demarcação em 1976, etapa importante para o reconhecimento dos direitos territoriais dos Paiter Suruí.
Contudo, o reconhecimento administrativo avançou nos anos seguintes. Em 29 de setembro de 1983, uma portaria da Funai declarou a posse permanente da área, e a homologação ocorreu em outubro daquele ano, durante o governo do presidente João Figueiredo.
Atualmente, a Terra Indígena Sete de Setembro abrange áreas dos municípios de Cacoal e Espigão d'Oeste, em Rondônia, e Rondolândia, em Mato Grosso.
O território possui aproximadamente 248 mil hectares e representa um espaço essencial para a preservação da identidade e das atividades tradicionais dos Paiter Suruí.
Da tragédia à continuidade de um povo
Apesar das perdas sofridas nas décadas seguintes ao contato, os Paiter Suruí continuaram reconstruindo suas comunidades e preservando conhecimentos transmitidos entre gerações.
Dados do Censo de 2022, reunidos pelo Instituto Socioambiental, registram 1.490 habitantes na Terra Indígena Sete de Setembro, um retrato da continuidade populacional após um período de profunda crise demográfica.
A história dos Paiter Suruí também faz parte da história da formação de Rondônia. Ela revela que o processo de ocupação e desenvolvimento econômico do estado ocorreu ao mesmo tempo em que populações indígenas enfrentavam doenças, deslocamentos e disputas por seus territórios.
Mais de cinco décadas depois do contato oficial, a trajetória desse povo permanece como um registro de resistência, recuperação populacional e preservação cultural na Amazônia brasileira.
Fontes: Instituto Socioambiental (Povos Indígenas no Brasil e Terras Indígenas no Brasil); artigo acadêmico "História pública produzida pelo povo indígena Paiter Suruí"; revista Ciência Geográfica; registros históricos sobre a Terra Indígena Sete de Setembro.