Tomás Paiva enfrenta insatisfação dentro do Exército enquanto mantém tropa longe da crise política
Grupos de militares criticam Tomás Paiva e cobram maior defesa da tropa, enquanto o comandante mantém a orientação de afastar o Exército das disputas entre governo, Congresso e Judiciário.
O comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, enfrenta críticas de grupos de militares que discordam da maneira como a atual cúpula da Força vem conduzindo sua relação com o governo, o Judiciário e os próprios integrantes da caserna.
Os relatos de insatisfação não são recentes. Em março, a Revista Oeste informou ter ouvido grupos de oficiais que manifestaram descontentamento com a gestão do comandante.
Segundo a publicação, as divergências alcançariam diferentes níveis da hierarquia e teriam como um dos principais pontos a percepção de que o comando não estaria defendendo suficientemente militares atingidos por investigações e decisões judiciais.
Críticos veem proximidade excessiva com governo Lula
Entre os setores críticos, uma das reclamações é de que Tomás Paiva teria priorizado a manutenção de uma relação institucional estável com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva em detrimento de posições mais firmes em defesa de integrantes da Força.
Essa, porém, é uma avaliação dos grupos de militares ouvidos pela imprensa. Não existe evidência pública que permita atribuir essa posição ao conjunto do Exército Brasileiro.
Também seria impreciso afirmar que existe uma “revolta generalizada” nos quartéis contra o comandante.
Tomás Paiva escolheu afastar Exército da disputa política
Do outro lado da controvérsia está a estratégia adotada pelo próprio comandante desde que assumiu o cargo.
Tomás Paiva vem defendendo publicamente que as Forças Armadas permaneçam afastadas das disputas político-partidárias e dos conflitos entre os Poderes.
Em entrevista à CNN Brasil, em junho, o general afirmou que eventuais crises institucionais devem ser solucionadas pelos mecanismos previstos na Constituição.
“Problema institucional é da nossa democracia, do sistema de freios e contrapesos, e não somos nós que vamos resolver esse problema institucional.”
A declaração sintetiza a posição defendida pelo atual comando: o Exército participa do Estado brasileiro, mas não deve atuar como árbitro das disputas entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Militares também estão deixando as urnas
Outro dado demonstra a mudança ocorrida dentro das Forças Armadas.
Em 2026, apenas 17 militares das três Forças solicitaram licença para disputar as eleições.
Em 2022, haviam sido 61.
A redução supera 70% e foi recebida positivamente pelos comandos militares como um sinal de diminuição do envolvimento da ativa na política partidária.
No Exército, que havia registrado 30 pedidos em 2022, a redução foi especialmente significativa.
Crise no STF aumenta pressão sobre os militares
A atual crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal voltou a colocar o papel das Forças Armadas no debate público.
O conflito desencadeado pelas investigações do Banco Master produziu uma das mais graves disputas internas recentes do Supremo, com divergências entre ministros, acusações públicas e questionamentos sobre procedimentos envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Apesar das pressões políticas para que os militares se posicionem diante da crise, a orientação da cúpula permanece sendo a de não entrar na disputa.
A avaliação dentro do comando é que conflitos entre ministros do Supremo, governo, Congresso e demais instituições devem ser resolvidos pelos próprios mecanismos civis previstos na Constituição.
Postura divide opiniões dentro da caserna
É justamente essa posição que provoca parte das críticas dirigidas a Tomás Paiva.
Para seus críticos dentro da Força, permanecer distante das disputas institucionais não deveria significar deixar de defender militares quando eles são atingidos por decisões consideradas injustas ou excessivas.
Para a atual cúpula, por outro lado, envolver o Exército nesses conflitos poderia representar novamente a entrada da instituição em uma disputa essencialmente política.
O debate, portanto, é maior do que uma simples disputa pessoal contra Tomás Paiva.
Ele envolve duas concepções sobre o papel institucional do Exército: uma que cobra atuação mais firme da cúpula na defesa dos integrantes da Força e outra que considera fundamental manter os quartéis distantes dos conflitos políticos e judiciais.
Há insatisfação, mas tamanho dela é desconhecido
Os relatos publicados pela imprensa demonstram que existem militares descontentes com o comando de Tomás Paiva.
O que não é possível determinar publicamente é a dimensão desse movimento dentro de uma instituição que possui mais de 200 mil integrantes entre oficiais e praças.
Não existem pesquisas internas públicas ou manifestações institucionais suficientes para afirmar que a posição dos grupos ouvidos pela imprensa representa a maioria da Força.
Por isso, expressões como “Exército se revolta contra Tomás Paiva” extrapolam as evidências disponíveis.
O que os fatos permitem afirmar é que o comandante enfrenta críticas internas enquanto mantém uma orientação clara: preservar o Exército fora da disputa político-partidária e deixar que as instituições civis resolvam a atual crise.
Fontes: Revista Oeste; CNN Brasil; dados obtidos via Lei de Acesso à Informação sobre candidaturas militares; Revista Sociedade Militar.